Não gosto de postar coisas demais sobre prematuros, e nem martelar na mesma tecla do quanto o Canadá é bom, mas quando algumas coisas interessantes cruzam o meu caminho eu não gosto de deixar passá-las, então PRECISO escrever este post hoje.

A Ashley, nossa querida amiga e enfermeira da Bella na época de Neonatal, nos mandou este vídeo que mostra em exatidão o cuidado, carinho e respeito com que o Canadá cuida dos seus prematurinhos e sua família.

Assistam pois vale MUITO A PENA. Você não precisa saber inglês para sentir o carinho na voz dos profissionais.

Morri chorando, desidratei messssssmo, principalmente em alguns pontos:

  • O olhar desta mãe
O vídeo começa e esta mãe mostra em seu olhar o que cada uma de nós, mães prematuras, sentimos. O olhar perdido, “helpless” como chamamos em inglês. Fiquei realmente impressionada com o olhar dela ao longo do vídeo, ele nunca muda, e acredito que eu e outras mães tenhamos tido o mesmo olhar ao longo da jornada na UTI. Não nos damos conta até ver o mesmo olhar em outra mãe.

  • O bebê é o primeiro a pedir ajuda
Um dos médicos diz uma das frases mais marcantes do vídeo: no silêncio do parto (geralmente não há gritaria no parto prematuro) a primeira pessoa a pedir ajuda é o bebê, que chorando ou não, mostra a todos que ele entende que precisa ajuda.
Cadê meu lencinho de papel?
Lembrei que de fato, durante o parto silencioso da Bella, no momento que o bebê nasce, mesmo quando ele não chora, absolutamente tudo se volta a ele, aquela pessoinha que mais precisa de ajuda. Primeiro o bebê….depois a mãe, como deve ser na minha opinião.
  • Dar esperança, segundo o pai
Adorei quando o pai diz que esperança é o que a equipe Neonatal mais deu aos pais. A esperança é dada diariamente através de médicos e enfermeiras e só duvida-se disso quando más notícias tem que dadas, mas no restante do tempo a equipe trabalha em passar esperança aos pais, que é o que no final das contas manterá estes pais de pé por tantos meses.
  • Respeito com a família
Exatamente o que eu disse no meu último post sobre prematuridade, os pais sentem-se respeitados e incluídos em tudo na vida dentro da UTI. São não só consultados sobre tudo o que envolve o bebê, como também respeitados em sua opinião e em sua dor durante a longa jornada dentro de uma UTI.
  • A função dos médicos, enfermeiras e terapeutas respiratórios é guiar a família
Nossa, mais choro ao ouvir o depoimento. Segundo a enfermeira Jill, a função dos médicos e equipe neonatal é não só salvar o bebê mas guiar a família para que ela tenha condições de seguirar a barra na UTI e poder ir para casa com seu bebê.

A impressão que se tem aqui é que salvar o bebê e dar apoio aos pais tem o mesmo peso.

  • O paciente não fala
Adorei a delicadeza com que um dos médicos diz que a UTI Neonatal é o único lugar onde o paciente não fala. O paciente mostra o que sente através de monitores e cabe aos médicos e sua equipe traduzir estes números. Uma equipe multi-disciplinar cuida do bebê e eles se consideram companheiros na luta pela sobrevivência do seu pequeno paciente.
Qualquer mãe de UTI no Canadá poderá confirmar que o clima que se tem na hora dos ROUNDS (reunião diária entre equipe e familia) é exatamente esta, de companheirismo. Uma lembrança forte que tenho é que a primeira que começava a falar durante os rounds era a enfermeira. Muitos médicos diziam para as enfermeiras da Bella : ” Vamos começar com a expert da Bella, o que ela tem a nos dizer hoje?”. Os médicos respeitam muito a opinião das enfermeiras e as tratam de igual para igual, jamais presenciei uma situação em que a enfermeira não falasse de igual para igual com um médico.

  • A primeira impressão da UTI
A  chefe do programa Neonatal de Vancouver diz que quando ela começou no seu novo cargo ela fez questão de entrar na UTI com os olhos dos pais, para sentir o quão assustador aquele lugar é, com seus sons e cheiros, bebês entubados e ligados a diversas máquinas.
A filosofia canadense, pelo que venho visto, é claramente explicada por esta moça:
“Procuramos ver e entender que embaixo das máquinas, tubos e fios…..há um bebê.”
Tão simples, mas tão esquecido no nosso Brasil onde os prematuros e suas famílias são vistos meramente como nomes numa lista de pacientes.

  • Extrair o leite….um momento solitário
Ai, não tenho saúde para ver este vídeo mais de uma vez. Estou olhando pela terceira vez para pegar os pontos importantes do vídeo para o blog, e a cada vez as lembranças de UTI voltam com força. Quando a mãe do vídeo diz que extraiu leite por 6 meses (eu extraí por 7 ao todo, até Bella desenvolver alergia a proteína do leite) a maior dor era o processo solitário de acordar a cada 3 horas para tirar leite sozinha, no escuro da noite. A maioria das mães tem seu bebê no colo ao amamentar, mas não as mães prematuras, que tem que passar por esta experiência de braços vazios, acordando de madrugada para garantir a alimentação do seu bebê que está na UTI, na esperança de que ele possa tomar aquele leitinho um dia.
Eu extraí leite por longos 3 meses SABENDO que Bella não poderia tomá-lo por causa de sua doença. Olha, digo a vocês, passar por tudo o que uma mãe prematura passa, e acordar de madrugada, com medo por seu bebê doente, e ter que achar forças para tirar um leite que não será tomado por meses, é um sacrifício imenso. Um sacrificio que só mostra o tamanho do amor de uma mãe. Eu tirava aquele leite sendo que ele seria posto fora (doar aqui é muito complexo) só para eu garantir que a minha produção de leite não caísse.
Só de lembrar daqueles tempos eu caio no choro. Aff o quanto a gente sofre.

  •  A resiliência da família
 “How resilient people are”, são as palavras de um dos médicos. Como podemos sobreviver a circunstâncias que jamais esperaríamos? Ele diz que muitas vezes avós dizem: “Sou eu quem deveria lidar com problemas médicos a esta altura da vida, não meu neto recém nascido”.
É como diz aquela expressão: “Você não sabe o quão forte é, até ser forte ser a sua única opção”

  • Líderes na sua especialidade
Um dos médicos neonatologistas diz que sua pimeira residência foi nesta área e ele se apaixonou tanto que nunca olhou para trás. Diz que os médicos do Children’s de Vancouver vêem os desafios de seus bebês com a mente de um líder na sua área, jamais apenas copiando as descobertas de pesquisa de outros médicos, mas tornando a equipe da UTI de Vancouver em líderes de pesquisa e cuidados médicos com os prematurinhos.
A parte que ele mais gosta no seu trabalho é olhar para os pais e dizer pura e simplesmente, sem entrar em detalhes médicos.
“Seu bebê ficará ok.”
OK é a palavra que nós pais prematuros mais almejamos dentro da UTI. Se o bebê está ok, a vida está ok para todos.

  • Ótima experiência com a equipe Neonatal no Canadá em geral
Parece martelar na mesma tecla, mas tudo o que ouço de pais prematuros no Canadá é o quão boa foram as experiências dentro da UTI. A mãe do vídeo diz o mesmo que sinto.
Esta mãe diz que o respeito para com os pais é único e eles são incluídos na equipe Neonatal assim como os profissionais da saúde, como parte dos cuidados para com o bebê.
É demais mesmo.
Que um dia o nosso Brasil possa aprender com o Canadá, a cuidar de seus prematurinhos como bebezinhos que são, e não como mero pacientes, e que os pais sejam vistos como parte essencial nos cuidados de seus filhos, que tenha direito a visitação o dia todo, assim como no Canadá, que sejam tratados com respeito, mas não só isso, principalmente com compaixão.

4 Comments on A esperança comeca aqui…..Vancouver BC Children`s Hospital

  1. Fernanda
    30/01/2013 at 11:42 am (8 years ago)

    Oi, Rita!

    Sem querer polemizar, meu filho, Gui, também ficou na UTI quando nasceu, ele não era prematuro, mas nasceu com um problema chamado laringomalacia que pode vir a causar a morte súbita entre outras complicações.

    Comparado à Bella, ele ficou pouco tempo na UTI, "apenas" 23 dias. Ele ficou numa UTI no Brasil mesmo, tudo bem que foi em hospital particular, mas posso afirmar que minha experiência não foi muito diferente da sua, tirando o fato de que não era permitido o acesso 24 horas dos pais (tinhamos que nos retirar às 22:00 e retorno às 8:00 e confesso que um dia fui embora às 19:00 e chorei horrores de culpa por não ficar lá até o último minuto permitido mas estava no meu limite em todos os aspectos, psicológico, emocional e físico e confesso que caso pudesse ficar 24 horas sei que me sentiria culpada todos os dias de ir embora, apesar de não ter culpa alguma).

    Enfim, todos os envolvidos foram extremamente carinhosos comigo e minha família, nos trataram com muito respeito e dedicação, nos apoiaram nos momentos difíceis, nos confortaram, chorei abraçada a enfermeiras, dividi minhas angústias com o chefe da UTI neonatal que sempre me relatava todo o ocorrido com meu bebê e fazia questão de revisar ele mesmo todo o monitoramento do dia anterior do meu pequeno para verificar qualquer queda de saturação que pudesse ter tido, ainda que só percebida pelo aparelho por durar apenas um segundo. A equipe do lactário onde retirava leite também era igualmente atenciosa, nunca fomos tratados como mais um, sempre pelos nossos nomes, assim como nosso bebê, nunca me senti desamparada ali…

    Quando meu pequeno ia ter alta, eu ainda não me sentia preparada para levá-lo para casa, pois morria de medo da morte súbita, tendo em vista que a laringomalácia é uma imaturidade da laringe que se resolve com o tempo e se uma mãe de bebê saudável confere a respiração do seu filho a cada 30 minutos, imagina uma mãe de um bebê com complicação que causa a morte súbita… Sendo assim, me foi oferecida uma área privativa da UTI que eu poderia ficar por algum tempo com meu pequeno sem ele estar ligado a aparelhos, assim como ficaria em casa, mas com o apoio da equipe de enfermagem do hospital até que eu me sentisse segura para levá-lo para casa pois segundo o Dr. Fernando (chefe da neonatal) ele não poderia dar alta ao meu filho sem me dar "alta" anterior e não mandaria para casa um bebê se a mãe não se sentia segura. No dia da alta, toda equipe estava lá para se despedir de nós, fiz questão de escrever uma carta agradecendo por tudo à equipe e outra ao Dr. Fernando, nossos verdadeiros anjos da guarda naqueles dias de dor.

    Esse é meu pequeno relato, resumido, só para demonstrar que sim, no Brasil temos boas UTIs neonatais com profissionais preparados e humanos. Temos coisas ruins como em qualquer parte do mundo mas acho que os brasileiros tendem a somente enxergar e relatar as experiências negativas e não compartilhar as boas coisas…

    Beijos,

    Fernanda

    Reply
  2. rita
    01/02/2013 at 5:25 am (8 years ago)

    Oi Fernanda

    Tu nao sabe o quanto me deixa feliz ler o seu comentario. Fico contente demais de ouvir historias como a sua, historia de amor e copaixao nas UTi Neonatais brasileiras. A maioria das historias que ouco nao sao sempre de final feliz, mas saber o que tu passastes me alegra muito, todas as maes deveriam ser tratadas com amor e carinho, principalmente nestes momentos delicados na vida dos nossos filhos.

    beijo grande
    Rita

    Reply
  3. Anonymous
    01/02/2013 at 5:36 am (8 years ago)

    Super lindo esse video. Tbem chorei mto, pois relembrei varios momentos q vivemos com a Melanie.

    Aqui em Calgary (faz quase um ano q abriu) agora tem o Calgary Milk Bank, onde vc pode doar leite materno. O processo comeca com uma entrevista por telefone, exames de sangue e um formulario q deve ser preenchido pelo seu medico de familia. Estando tudo ok, vc pode doar (minino solicitado de 4500ml – num periodo de 6 meses). Eles inclusive vao buscar seu leite em casa. E esse leite eh disponibilizado aos bebes prematuros qdo os medicos da NICU solicitam.

    Bjos pra vc e Bella,
    Rosi Fogaca

    Reply
  4. Rita do Botoezinhos
    01/02/2013 at 5:40 am (8 years ago)

    Jura Rosi???

    Puxa, na epoca fiquei ate chateada, tanto trabalho para extrair o leite e joga-lo fora, mas em 2009 so tinha um banco e era em Kelowna ou Victoria (esqueci agora) e era a maior novela tentar doar o leite.

    Muito legal.

    Teu ultimo baby nasceu de 9 meses?????

    Beijinhos

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