“It takes a village to raise a child.” (É preciso uma aldeia para criar uma criança)

Uma das citações mais marcantes do livro infantil que estou lendo foi esta acima, e ela me levou a fazer uma série de reflexões que não imaginei que o livro fosse me proporcionar. O autor enfatiza que por milhares de anos pais tinham literalmente uma aldeia que os ajudava na criação dos seus filhos: avós, tias, primas, vizinhas, filhos mais velhos, um grupo de suporte que ajudava a nova mãe no que ela precisasse. Pergunte para sua mãe e sua avó como as coisas funcionavam lá atrás, a comunidade era muito mais unida, se ajudava, havia um amparo para com a nova mãe, e esta iniciava o seu maior desafio, o da maternidade, com mais tranquilidade.

Já hoje, em países como os Estados Unidos e Canadá, isso já não existe mais. Possuimos mais comodidades como carro, máquinas de lavar e secar, lava-louça, todas as mordomias que  certamente ajudam em casa, mas nada que se compare a falta tremenda da família, vizinhos e comunidade em geral.

Ai, fiquei tão sentida quando li este capítulo, fiquei triste mesmo. Passei a tarde meio (muito) abalada. Nunca tinha parado para pensar nas implicações da nossa vida solitária aqui no Canadá, principalmente agora com nossa mudança para Vancouver, onde estamos começando do zero novamente.

A nossa vida no Canadá é quase perfeita, não posso mentir: país civilizado, seguro, bons empregos, casa nova linda e novinha, carro e todas as comodidades e luxinhos da vida moderna, mas a ausência das nossas famílias jamais permitirá que a nossa vida aqui seja perfeita em todos os sentidos. Quando penso que a Bella crescerá sem primos, como eu cresci, sem poder visitar a casa da vovó todo final de semana, sem poder passar as datas importantes na casa da família comendo um belo churrasco, ou convidando meia cidade para sua festinha de aniversário, isso me entristece muito. Sei que os prós são maiores que os contras, mas tendo eu vivido a vida em família como nós no Brasil vivemos, eu me magôo por não poder proporcionar isso para ela. Em troca, porém, ela terá a chance de construir sua vida em um país ímpar como o Canadá, onde os básicos como segurança, oportunidades e dignidade serão sempre presentes.

Eu acredito que certos livros, filmes e músicas apareçam na nossa vida quando mais precisamos, e foi assim com este livro que estou lendo agora (A crianca mais feliz do pedaco). Ele chegou exatamente neste momento em que eu me sinto muito fragilizada com esta vida de gente grande: acordar cedo da manhâ, trabalhar o dia todo, cuidar da Bella após o trabalho, fazendo absolutamente T-O-D-O-S os afazeres de casa sozinha, sem nenhum tipo de ajuda (do Bryan, lógico, mas só também) e sobrando praticamente nada de tempo livre para mim. Toda esta bagagem resulta em uma mãe extremamente sensível e auto-crítica, que não se permite errar ou esculhembar sua rotina de vez em quando, pois sabe que se o fizer, ela mesmo pagará por isso, já que não terá ninguém ao alcance do telefone para acudir.

Um sentimento bem feio que sinto às vezes, principalmente quando estou em uma fase down, é ter pena de mim mesma. Vejam que vexame, mas é verdade. Pronto, falei. Pena por ter saudade da minha família e ter vontade de visitá-los mais seguidamente e não poder, pena por ver a Bella fazendo suas peripécias diariamente e saber que minha família está perdendo tudo isso, pena por ter que fazer tudo sozinha sem a ajuda de ninguém, enfim, pena, pois afinal, saindo em minha defesa, e agora com o amparo do querido doutor Karp, autor do livro, eu mereço me dar ao luxo de admitir minhas fragilidades de vez em quando, ou de vez em sempre, conforme você preferir.

A pena, porém, está intimamente ligada a escolha que eu fiz lá atrás, há 8 anos quando resolvi largar tudo por amor e vir para o Canadá de mala e cuia. A escolha foi a mais acertada que já fiz até hoje, mas ela não veio de graça, e solidão faz parte dela. Sei que ela paira mais pesada no ar agora, pois não tenho amigas na nova cidade, não tenho a “pequena aldeia” que tinha construído em Calgary, minha antiga cidade. Tenho amigas maravilhosas por lá e nos visitávamos, conversávamos por telefone, chorávamos no ombro umas das outras, eu tinha este grupo de suporte e por isso consegui sobreviver a toda a provação do nascimento da Bella e sair inteira no final do túnel, mas agora a minha aldeia está tão longe e quanto maior a distãncia, mais a nuvem da solidão nos segue.

O Doutor Karp diz que mais e mais a comunidade global está se esvaindo, já que embora as famílias ainda possam morar perto, as facilidades como email, celular, drive through, tudo propicia a distância entre as pessoas, e mais e mais os pais de primeira viagem se vêem sozinhos, sem ter com quem contar.

Não sei bem qual a melhor solução para este problema, pois todos buscamos o melhor caminho para nossas vidas, e ele pode não estar onde nossa família está, e daí você terá que suar a camisa para construir sua pequena aldeia de novo, de novo e de novo…….

10 Comments on É preciso uma aldeia…

  1. Adriana
    23/04/2012 at 1:49 pm (8 years ago)

    Ri,
    Preciso dizer q chorei? Amiga querida, ontem tive uma crise braba pq não agüento mais essa vida cigana. Quero voltar pra minha casa, pra nossa 'pequena aldeia'. Tô down q nem vc já faz tempo, pronto falei! Família faz uma falta danada, né? Eu sinto o mesmo q vc. Olho pro meu pequeno sapinho e vejo q ele não vai fazer as coisas q eu fiz, não vai ter primos por perto, nem a casa da vovó e os churrascos ou macarronadas de final de semana, bacalhoada na Páscoa com a cambada toda e a bagunça do Natal e Ano Novo… o coração dói q só!
    Bellinha e Sapinho são agora como aqueles primos q moram longe, uma no "Rio" e o outro em "Goiânia"

    Reply
  2. Adriana
    23/04/2012 at 2:00 pm (8 years ago)

    (deu pau no post, mas continuando…)
    E sabe o q é pior? A gente nunca mais vai ser completa. No Canadá sinto falta do Brasil e no Brasil sinto falta do Canadá! Meu mundo perfeito seria ter minha família e a do Dudu em Calgary, pq eu descobri q é deles q eu sinto falta e q a tranqüilidade de vida q a gente tem no Canadá é o q me deixa mais feliz. Esta temporada aqui pro BsAs me faz sentir tanta falta da decência e honestidade dos canadenses…
    Eita desabafo brabo este o meu, né?
    Saudades de vcs, querida amiga!
    Beijo grande, Dri

    Reply
  3. Carolina
    23/04/2012 at 5:17 pm (8 years ago)

    Olá Rita,
    Sou leitora recente do seu blog, e estou amando cada dia mais! Temos algumas coisas em comum, eu também larguei tudo no Brasil pra viver pelo mundo com meu marido, e tenho um bebê de 4 meses que também nasceu prematuro. Me identifiquei muito com o seu desabafo, seus medos e angustias. Mas se serve de consolo, nossos pequenos conseguem lidar muito melhor com estas situações do que nós. Afinal estas são as nossas lembranças, e não deles. As lembranças deles estão sendo construídas agora, e será desse tempo que eles sentirão falta.
    Não deixe que a nuvem de solidão fique por aí por muito tempo. Busque amigos novamente! Por mais cansativo que seja começar tudo outra vez, sempre é bom conhecer novas pessoas, elas sempre acrescentam algo novo em nossas vidas!
    Beijos Carol

    Reply
  4. Karina Rezende
    23/04/2012 at 10:27 pm (8 years ago)

    Ritinha, adoro ler seus posts porque me identifico em várias coisas!
    Nesse em específico, eu entendo, mas não me identifico…rs
    Nós mudamos quando a Maria Eduarda tinha recém completado 3 anos.
    Ela cresceu tendo a Austrália como casa e hoje, ama a Nova Zelândia.
    Entre a Austrália e a Nova Zelândia, passamos 4 meses no Brasil e ela ODIOU! Com todas as letras! Vi minha pitoquinha reclamando de coisas que eu nem imaginaria, e a família, não ajudou em nada nesse processo. Não que eles não fossem presentes, importantes ou não tentassem…
    É claro que eu sinto falta dos meus pais, mas a minha família hoje é o Rob e a Duda. E se eles estão felizes aqui, eu também estou.
    Primos, família grande, churrasco no final de semana…PRA MIM, é um cisco comparado a tudo que temos aqui!
    Espero, do fundo do coração, que você encontre um meio termo e consiga se desligar um pouco e viver bem, muito bem, com a escolha que você fez!
    Um beijo enorme,

    Ka

    Reply
  5. Mercia
    24/04/2012 at 1:19 am (8 years ago)

    Identificação total por aqui tb Amiga!
    Apesar de não morar fora do Brasil, só de estar morando em outra cidade eu já me sinto assim, abandonada e culpada pelo Lucas não ter a "aldeia" por perto, de sermos só nós três e nada mais!!
    Ainda mais que fomos nesse finde pra BH, volto feliz de estar perto da família, mas triste por não tê-los perto sempre…
    É a vida que a gente escolheu!!
    Beijos

    Reply
  6. rita
    24/04/2012 at 3:54 am (8 years ago)

    Adri….eu sei Adri, para ti eh ainda mais dificil pois nao esta em casa, esta vida de cigana deve ser super dificil.

    Muita forca amiga, ja ja voces estarao em casa se Deus quiser.

    Beijos com muita saudade

    Reply
  7. rita
    24/04/2012 at 3:56 am (8 years ago)

    Oi Carol!

    A minha solidao nao eh mostrada para Bella, nao sou baixo astral neste quesito, eh mais uma coisa guardada em mim, pois acabamos de nos mudar. E numa cidade grande arrumar amigos assim rapidinho as vezes nao rola, mas darei tempo ao tempo, logo mais estaremos mais bem ambientados por aqui.

    Beijinhos

    Reply
  8. rita
    24/04/2012 at 4:01 am (8 years ago)

    Oi Ka!

    Tu sabes que eu nao tenho saudade de morar no Brasil, por mim nunca mais voltaria a morar la, mas sinto sim falta da minha familia, isso nunca vai mudar, e mesmo tendo minha familia de 4 aqui, o sentimento de saudade ainda fica. Eu queria muito que a Bella crescesse com sua familia, que pudessem ver as coisas queridas que ela faz, pois eles adoram acompanhar tudo por email e blog, mas nao eh a mesma coisa.

    Enfim, nada vai mudar, eles nao virao para ca e nos nao iremos morar la, mas a saudade fica e este sentimento tambem, fazer o que.

    Eu estou certa da minha mudanca, ja moro aqui ha mais de 8 anos, mas depois que a Bella nasceu ficou mais dificil, queria muito dividir tudo com eles, por isso fico triste neste ponto.

    Mas eh a vida ne?
    Nao se pode ter tudo.

    Beijocas

    Reply
  9. rita
    24/04/2012 at 4:02 am (8 years ago)

    Mercinha, quando escrevi o post lembrei de ti, no mesmo barco que eu, morando longe.

    Snif ne amiga?
    as visitas sao otimas mas deixam um gostinho ainda mais dificil de saudade.

    Reply
  10. Pâmela
    05/05/2012 at 5:32 am (8 years ago)

    Como seria ótimo uma "vila" toda cooperando na criação das crianças né!

    Essa informação que eu li no livro do Dr. Harvey tb fica ressoando na minha mente…

    Mesmo morando mais ou menos próximo da minha família, cada um tem sua vida e continuo levando tudo sozinha… Acho que a única diferença é poder ir num fim de semana matar a saudade… Mas de resto, é como se eu morasse em qualquer outro lugar do mundo rsrs

    Tem gente que gosta desta vida moderna, independente ao extremo, eu preferiria que ela fosse mais lenta, mais participativa, mais envolvente…

    Bjosss solidários!

    Reply

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Comment *