Desde que o blog foi lançado já recebi inúmeros emails perguntando sobre como foi nossa experiência com a Bella na UTI, em termos logísticos: hospital, médicos, contas de seguro saúde e por aí vai.

Quando tive dores de parto e fui parar no hospital, jamais imaginando que Bella nasceria naquela noite, saí de casa só com a minha bolsa e uma correntinha que tenho como meu amuleto, com pingente de anjo e uma cruz. Desde que engravidei encasquetei que a correntinha me protegeria de qualquer mal que me aflingisse, e quando notei 1 gotinha de sangue naquela noite, gritei pelo Bryan e saí catando a correntinha pela casa. Lá fomos nós, Bryan, a correntinha e eu para o hospital. Na minha bolsa? Chave e carteira, mais nada.

Fui informada de que Bella nasceria dentro de algumas horas e fui imediatamente transferida de ambulância para o hospital Foothills de Calgary, um dos mais aclamados em cuidados prematuros. Fortes emoções, confesso que andar de ambulância me remeteu aos tempos do seriado “Plantão Médico”.

Em meio a comoção que um parto prematuro extremo causa dentro de uma maternidade, jamais fui questionada sobre nada que não minha saúde. Nem sobre seguro médico, muito menos sobre cobranças. Bryan esteve ao meu lado o tempo inteiro e também nunca foi questionado sobre nada disso.

  • Bem vindo à UTI neonatal

Bella nasceu e foi transferida para a UTI neonatal de nível 3, para bebês em estado crítico. Vim aprender que logo que um bebê em estado crítico chega em uma UTI ele imediatamente recebe duas (ou mais) enfermeiras só para ele. Duas enfermeiras que estarão ao seu lado 24 horas por dia sem jamais sair do seu lado. Serão elas as encarregadas a administrar medicação e a fazer alguns procedimentos médicos como acesso à veias, entre outras coisas que mãe nenhuma deveria ver.

UTI nível 3. O que há de mais moderno para salvar prematuros extremos.

No Canadá o time médico dentro da UTI é dividido em: enfermeira + PHD’s em enfermagem, que cuidam do seu bebê como um médico, e realizam procedimentos médicos mais delicados + médicos de diversas especialidades.

  • Procedimentos médicos

Acredito que a medicina no Canadá, ao menos no quesito Neonatologia, seja mais sincera com os pais aqui no Canadá, do que no Brasil. Aqui os pais são informados de absolutamente tudo o que se passa com o bebê, de todas as suspeitas de doenças e todos os procedimentos médicos a serem realizados. Sei que no Brasil os pais são poupados de muitos detalhes, aqui não, são sinceros até demais. Bom por um lado, ruim por outro, seu pobre coração despedaçado não será poupado de nada.

Transfusões de sangue e derivados (plasma, plaquetas, etc) são parte da rotina de um prematuro e o pai da criança será convidado a fazer testes para verificar se poderia doar sangue para o bebê. Se ele não puder doar por qualquer motivo, seu bebê receberá sangue doado por um banco de sangue. Fui informada por médicos que prematuros e pacientes com câncer recebem o sangue mais puro que existe, aquele que não possui nenhuma impureza ou doença.

Não lembro de assinarmos autorizações seguidamente, a única que lembro foi para a sua cirurgia gastro. Esta sim exigiu mil e uma autorizações. Bella foi transferida para outro hospital em uma incubadora-UTI móvel, acompanhada de 2 enfermeiras, uma especializada em transporte, e um terapeuta respiratório, encarregado de monitorar sua respiração e manipular seus tanques de oxigênio.

Foto da incubadora-UTI móvel em que Bella foi transferida

 Exames como ressonância magnética, raio X de contraste, ultrasons e Cat Scans acabam se tornando comuns para alguns prematuros, como aconteceu com a Bella. Estes exames costumam ser muito caros, mas se chegar a hora e seu prematuro precisar de algum deles para ontem, estes exames serão feitos imediatamente. Aqui no Canadá bebê prematuro não espera na fila para nada, é atendido no minuto que precisa. Sempre que Bella precisou de exames mais complexos como os acima, uma vez diagnosticado o problema, cada exame era feito em questão de horas.

Vacinas também são parte da vida de um prematurinho e para minha surpresa, Bella tomou todas como um bebê nascido à termo tomaria. Mesmo minusculinha como era, recebeu as vacinas normalmente. Eram dadas pelas enfermeiras que estavam trabalhando no seu plantão naquele dia. Nada de ir a clínica alguma.

Consultas com especialistas são rotina para prematuros. Pediatras e Neonatologistas são os nomes mais conhecidos na UTI, mas no caso da Bella, médicos infectologistas, oculistas, cirurgiões e gastro eram vistos “rondando” sua incubadora diariamente. Novamente, nada de ir até outro hospital ou clínica, eles iam até a incubadora da Bella para examiná-la. Minha experiência com os especialistas sempre foi de muito M-E-D-O, pois eu sabia que bebê sadio não precisava de especialista, cada vez que um me era mencionado eu caía no pranto, mas no final das contas todos contribuíram para a saúde da minha pimentinha. Os especialistas de prematuros aqui no Canadá são médicos “high profile”, ou seja, médicos na maioria das vezes muito famosos na sua área, seja no Canadá ou até internacionalmente, portanto alguns são um pouco difíceis de se lidar: muito práticos, quase nada sensíveis a dor de uma mãe. Por isso a mãe prematura tem que ser casca dura. A oculista da Bella, por exemplo, é a médica de Retinoplatia mais famosa da América do Norte, viaja aos EUA o tempo todo para operar casos complexos por lá, portanto imaginem lidar com esta estrela?

  • O custo médico desta maravilha

Bella nasceu em um dos países mais desenvolvidos do mundo, onde a saúde de suas crianças é levada a sério, e onde os pais pagam………NADA por isso.

Vejam bem, este é o custo estimado da estadia da Bella na UTI neonatal por 138 dias:

* Estima-se que o custo de um bebê na UTI Neonatal de nível 3 custe U$ 1.000 por D-I-A. Isso só pelo leito em si e pelo “uso” de enfermeiras e médicos, sem nada de procedimentos e tratamentos inclusos neste valor.
  138 dias x U$ 1.000 = U$ 138.000. Cento e trinta e oito mil dólares!
  Não pagamos 1 centavo.

* Estima-se que o custo da cirurgia gastro da Bella tenha sido de valor similar ao acima, ou seja, mais de 100 mil dólares por uma cirurgia.
   Não pagamos um centavo.

* Ressonância, raio X, Scans, ultrasons, entre outros:
   Não pagamos nada, nunca.

* Cirurgia de Retinoplatia nos dois olhos feita após a alta, com a médica estrela.
   Não pagamos um centavo.

* 7 meses de vacinas mensais para a Bronqueolite, doença que pode aflingir prematurinhos.
  O custo deste tratamento preventivo é OBSCENO, 7 injeções custam 75 mil reais no Brasil.
  Não pagamos um centavo.

Conta total estimada do tratamento da Bella: Mais de 500 mil dólares! Meio milhão!
Não pagamos nem um centavo.

Saímos do hospital carregando nosso bebê nos braços sem jamais passar pelo setor de cobranças. Jamais recebemos uma conta no final destes 138 dias. O último dia foi apenas de muitos abraços nas enfermeiras e médicos que cuidaram da nossa filha.

O abraço da nossa médica favorita. Muita saudade desta pessoa maravilhosa.

Nunca me esqueço de um médico que conversou comigo quando a Bella saiu da ala de estado crítico para o berçario, ele disse uma das frases mais lindas que alguém pode dizer a uma mãe prematura:

“As próximas portas que seu bebê atravessará serão para ir para casa”.

As temidas portas da UTI

E as portas finalmente se abriram para a nossa família sem que nada fosse cobrado por elas.

A sensação de ter nossa filha cuidada da forma como ela foi, por toda uma equipe médica por 138 longos dias, ser amada como foi por todos e não termos sido cobrados nada por isso é incrível. A sensação de que o país se importa com você, com o seu filho, e que nada será economizado para ver seu bebê ir para casa com saúde.

O sistema de saúde do Canadá não é perfeito, e adultos que não estejam em estado grave tem de esperar para serem atendidos, mas vejam bem, o nossos sistema aqui é similar ao SUS brasileiro, e mesmo assim o atendimento da Bella foi de OUTRO MUNDO. Ter grandes nomes médicos cuidando do seu bebê no momento mais desesperador da sua vida e saber que você não pagará nada por isso é de tirar o fôlego até dos mais insensíveis.

5 Comments on Nossa experiência na UTI: a logística

  1. JM
    19/03/2012 at 6:43 am (9 years ago)

    Acabei de voltar de 5 horas de espera do hospital para descobrir que eu não tinha nada, mas deitada em minha cama as 0:41 da noite e ler isso, cai num choro só. Por isso amo o Canada e sou muito orgulhosa por ter escolhido esse pais para morar.
    E amo saber que a belinha foi tão bem tratada e hj e uma geninha!!!!
    Beijos e obrigado pelo post Ri!!!!

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  2. Helena
    19/03/2012 at 1:39 pm (9 years ago)

    Ei Rita! Que maravilha poder contar com uma estrutura assim ne? Aqui as coisas são um pouco diferentes mesmo. O Plano de Saude cobriu todo o tempo que o Rafael ficou internado, ele não fez nenhuma cirurgia, ou outro procedimento fora o de rotina da UTI, então não sei como funciona nesses casos. Mas, no geral, achei tanto os medicos qto o ambiente da UTI muito pouco humanizados. Vc falou tudo, mãe de prematuro tem que ser mesmo casca dura! Muito bom saber como as coisas funcionam por aí! Saudade das nossas conversas, vou te mandar um email depois! bjão! Helena

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  3. Wera Corrêa
    19/03/2012 at 3:06 pm (9 years ago)

    Li o post de hoje chorando. Relembrando tudo que passamos e graças a Deus superamos. Lembro quando levavas ela na consulta com o pediatra e ele dizia: "chegou nosso pequeno milagre". Hoje temos essa menininha tão especial conosco, super ativa, esperta e tão inteligente. bj

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  4. AS PAULINAS
    19/03/2012 at 4:45 pm (9 years ago)

    AI, ai… chorando aqui…
    Rita, lindo relato!
    Realmente cuidar de uma cça deveria ser assim em todo canto.
    Um bb que nasce é o futuro de tudo, já pensou?
    E saúde não tem preço!
    Fico feliz por mesmo virtualmente poder acompanhar essa trajetória de sucesso de vcs!

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  5. Sandra Nogueira
    20/03/2012 at 2:36 pm (9 years ago)

    Cara Rita,

    a minha história na UTI foi tão diferente…tbe não pagamos por nada pois tínhamos convênio, mas o atendimento não chega nem perto do que é aí no Canadá, daí as chances de sobrevivência de prematuros extremos serem bem maiores aí.
    Chegamos a articular uma transferência da Helena para o Canadá quando meu filho morreu por uma perfuração pulmonar pelo acesso central e devido a demora na execução de um raio-x e um ultrassom (24 horas!!!!) a drenagem pulmonar chegou tarde demais e ele faleceu…
    Mas fomos desaconselhados devido a fragilidade dela a fazer uma viagem tão longa.
    Nunca fomos atendidos pelo infectologista do hospital, mesmo indo repetidas vezes ao seu consultório; só conhecemos o oftalmologista depois da alta (a Helena faz acompanhamento com ele hoje); nunca fomos devidamente informados sobre nenhum procedimento que seria feito (mesmo permanecendo 12 horas na UTI sem sair nem mesmo para me alimentar); a Helena não foi vacinada dentro da UTI…ficou lá por 110 dias sem receber nenhuma vacina é de prache aqui no Brasil só vacinar as crianças prematuras depois que atingem 2 Kg, a Helena teve alta com 1945 Kg e a vacinação se tornou um problema nosso e por fim a vacina de bronqueolite da Helena foi uma batalha na justiça que nos custou tempo e dinheiro.

    ai…ai…acho que vou para o Canadá…

    e outra pergunta: a Bella precisou ou precisa de terapias (fisio, fono, to, etc.) se sim como funciona aí…as vezes consigo uma temporada de pós-doc neste país maravilhoso…

    bjos e vou fazer um post no blog da Helena sobre a logística daqui…é de arrepiar

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