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Tenho mexido em algumas fotos do passado, 2009 mais precisamente. Aquelas fotos da época em que estava grávida, depois dos primeiros dias da minha filha no hospital. Bella já tem 6 anos, fazem 6 anos que ela nasceu prematura de apenas 25 semanas de gestação. Fazem 6 anos que passamos os 138 dias mais dificeis das nossas vidas dentro de uma UTi Neonatal. Fazem 6 anos que ouvimos tudo o que uma mãe e um pai não desejam para seu bebê: ela tem poucas chances de sobreviver ao nascimento, tem poucas chances de sobreviver a necrose dos intestinos, tem poucas chances de…..viver, mas seis anos depois ela está aqui conosco: viva, forte, intensa e Bellíssima.

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Ali no meu peito tem um bebê, vejam o seu tamanhinho 🙁

Seis anos se passaram mas parece que foi ontem e o sentimento que tenho é que sempre parecerá que foi ontem. Não importa que 30 anos se passem. Sempre digo – mas não o bastante para me convencer – de que eu deveria ter feito terapia depois do nascimento traumático da minha filha. Deveria mas não fiz, achava bobagem, achava que estes sentimentos iriam passar, que o medo iria passar, que os traumas não poderiam sobreviver tantos anos, mas estava enganada. Uma vez vivido tudo o que uma mãe de prematuro extremo pode viver dentro de uma UTI, você não apaga estas experiências de dentro de você. Elas apagam tudo o que você era e a transformam no seu novo eu.

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Primeira foto com a Bella. Na manhã seguinte ao seu nascimento, ainda com a mesma roupa do dia anterior. Não tinha mala de maternidade e ninguém para ir em casa me trazer uma malinha de coisas. Tempos muito difíceis.

A pessoa que sou hoje, não somente a mãe, mas a pessoa que sou hoje, foi moldada pelo nascimento da minha filha e todas as lágrimas que ele provocou e ensinou. Tudo o que eu dou valor, tudo o que eu absolutamente não tolero, seja sobre os relacionamentos da minha vida, as amizades verdadeiras que eu valorizo e desejo preservar, a luta diária para viver uma vida honesta e autêntica perante o que acredito, tudo o que eu penso e sinto nasceram junto com ela. Eu só consigo compartilhar esta experiência tão forte com outras mães prematuras: nem com meu marido, nem com a minha familia, nem com minhas melhores amigas, nem mesmo com a minha própria filha (que não lembra de nada, obviamente), somente com outra mãe que caminhou o mesmo caminho que eu, que chorou as mesmas lágrimas que eu, que dormiu cansada noite após noite sem saber o que o próximo dia traria.

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Me identifiquei muito com uma música chamada “Till it happens to you”.

“You tell me it gets better, it gets better in time

You say I’ll pull myself together, pull it together

You will be fine

Tell me what a hell do you know

What do you know?

Till it happens to you, you don’t know what it feels

How it feels

Till your standing in my shoes, I don’t wanna hear a thing from you….cause you dont know.”

A música diz que falam que você vai melhorar com o tempo. Levante-se, ajude-se, você já já estará bem. Mas me diga? Que raios você entende? Me diga que raios você entende do que eu vivi, do que eu senti? Até acontecer com você nunca saberá o que isso significa, como você se sentiria.

Sábias palavras.

Estes sentimentos voltaram a tona ontem quando soube que existe no Canadá, neste exato momento, um prematurinho de apenas (e inimagináveis) 20 semanas lutando pela vida, e saber que existe uma família lá fora que hoje vive tudo o que vivemos, que choram as mesmas lágrimas e sofrem o que vivemos, me deixa muito triste. Sempre me deixará. Hoje me considero uma embaixadora da prematuridade, me dei este titulo e o carrego com muito orgulho, pois sei que são poucas as vozes que expressam o que isso significa.

Há seis anos eu não tinha nenhuma mãe para me dizer o que tudo aquilo significava, mas hoje eu sou esta mãe, e espero poder ajudar outras mães que estejam passando por tudo isso que nós já vivemos.

6 Comments on Que raios você entende?

  1. Gustavo
    17/05/2016 at 7:24 pm (10 months ago)

    Tu é a melhor!

    Reply
    • rita
      17/05/2016 at 7:29 pm (10 months ago)

      Obrigada amore, são teus olhos!

      Reply
  2. Ana
    17/05/2016 at 7:51 pm (10 months ago)

    Nossa Rita, puxa muito sofrido o nascimento da Bellinha! Sabe que me identifico um pouquinho com vc! Meu filho não foi prematuro, mas nasceu com um problema congênito o pé e o meu pós-parto também foi muito sofrido. Ele não correu risco de vida, nem nada parecido com o que vc passou. Mas ele teve que engessar a perna com 9 dias e usou gesso por 3 meses, fez cirurgia e teve ainda um refluxo patológico que nos marcou muito. Enfim, ele deu super conta do recado e depois de 3 anos de tratamento hoje está com o pé consertado! Mas em mim ficou a cicatriz, ficou o trauma e também não fiz terapia, mas deveria ter feito. Sofri muito até me acostumar que meu filho não tinha nascido “perfeito” como eu sonhava. Com muito esforço aos pouco fui aprendendo a lidar com minha situação nova, pois eu não sabia de nada sobre aquele problema e tb não sabia o que era ter um filho!!!! Tive uma mãe maravilhosa que me acolheu quando eu estava recém parida e depois disso ajudei muitas mães que tiveram filhos com pé torto congênito. Fazia e faço questão de conversar com a mãe quando vejo bb de gesso!! Mostro o pé lindo do meu filho e como ele ficou fortão!!!! Tudo isso para partilhar minha história e dizer que te entendo um pouco também!! Não te conheço pessoalmente mas te acompanho no instagram e vejo que sua filha é linda e forte!!! Tenho certeza que tua força está nela!! Grande beijo e vamos quem sabe nos encontrar um dia em Van?

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  3. Paula
    17/05/2016 at 8:16 pm (10 months ago)

    Suas palavras me emocionam tanto , eu tento imaginar o que você e outras mães passam e sentem , não só em relação à prematuridade , mas tbm outros momentos difíceis que experimentam … mas realmente , só quem viveu a mesma experiência é capaz de compartilhar e entender de alma . Não é tarde para fazer terapia , pense nisso , beijos

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  4. Pamela
    17/05/2016 at 8:38 pm (10 months ago)

    E a sua força, suas lágrimas e suas cicatrizes são consolo para tantas mães e pais, sozinhos em uma jornada assustadora. Que haja cada dia mais força pra ti continuar conectando vidas! Te amo!

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  5. Mercia Correa
    17/05/2016 at 10:01 pm (10 months ago)

    Querida! Que honra saber que posso ser sua confidente! Na época do Lucas na UTI foi vc que me deu força e esperança todos os dias! Como era bom ter sua experiência e sua energia positiva pra me ajudar! Nunca esquecerei! Lucas e Bellinha serão sempre nossas joias raras que, por algum motivo, quiseram estar entre a gente! E de maneira tão intensa! Te amo demais! Beijo da sua amiga!

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