Destemida

Quem tem criança em casa sabe: elas são muito, muito engraçadas. São sinceras e honestas, tem uma imaginação aguçada, são corajosas, expões seus sentimentos, nos mostram seus talentos, suas qualidades e fraquezas, e isso assim…..diariamente. Em algum momento da infãncia, porém,  elas deixam de ser assim, deixam de agir assim e um dia, nasce um adulto.

Uma coisa que você aprende quando você trabalha com crianças pequenas é a não rir. Claro, professoras são humanas, acham graça, choram de rir, se divertem a beça durante sua jornada de trabalho, apesar da imensa responsabilidade que é cuidar dos filhos dos outros, mas é sem dúvida um dos trabalhos mais compensadores que existem. Mas rir de uma criança? O tempo todo? A maioria das professoras não faz. Mas por quê?
Uma criança pequenininha tem todos os atributos que descrevi no primeiro parágrafo, elas são  destemidas. Destemidas de tudo……do medo em si, da vergonha, da timidez (em sua maioria), do julgamento das pessoas. Elas fazem tudo de acordo com a sua personalidade, não se podam, nunca como os adultos. Elas fazem piadas de si mesmas, fazem careta, choram de dar escândalo, riem por qualquer coisa, correm, correm muito, nunca querem caminhar. Pulam, saltitam, elas sabem viver, mas se você começar a rir constantemente destas gracinhas, o seu lado destemido se vai e não volta mais.
Se eu pegar a minha filha como exemplo, quem a conhece sabe que ela é uma boa “vivant”. Ela abraça a vida e se joga. Ela canta, ela mesma compõe suas letras (hahaha, o tema favorito é o destino, acreditem), ela dança, ela não está nem aí para nada nem para ninguém. Ela também tem um vocabulário muito culto, fala palavras que nem eu falaria, tem um raciocinio para certos assuntos que fico me perguntando de onde mesmo ela aprendeu aquilo? E as vezes me pego ouvindo as “barbaridades” que ela fala sem rir, ou melhor, eu ouço com toda a atenção e depois rio escondido. Daí me dou conta que eu sou treinada para isso, na escolinha as professoras tem muito auto controle para lidar com crianças sem rir, sem fazer com que elas se sintam envergonhadas ou julgadas. As vezes eu quero rir tanto, mas tanto, que pinga uma lágrima do ladinho do olho, sabe? Principalmente no carro, mas eu aguento firme.
O que eu quero dizer é que nós pais, avós, tios, primos e afins deveríamos nos treinar, nos policiar para aguentarmos firme quando os pequenos falam uma coisa super engraçada e fofa, para que eles consigam concluir seu raciocínio sem ter que parar pois o adulto está se matando de gargalhar. Isso leva tempo e eu sei, é muito dificil, mas vale a pena o treino.
Agora me vem a cabeça aquele video que ficou famoso no Brasil e no mundo, do menininho brasileiro fofo, sentado a mesa com a mãe, que começa a discorrer sobre não comer carne pois não queremos machucar os animais, eles queria que os animais ficassem de pé, lembram? Até vou procurar o video para vocês verem de novo, observem como a mãe se mantem calma, sem rir. Firme e forte ouvindo aquela conversa tão linda e sensivel, que ganhou o mundo pela sua sabedoria e complexidade. Aquele menininho se sentiu 100% seguro e confortável para expressar seu raciocinio para sua mãe. Com muita calma ele pensa devagar, fala, pergunta e argumenta, e a mãe ali forte, e no final, somente no final, ele se dá conta que a mãe está chorando de emocionada, e somente no final ele pausa para saber porque a mãe está tendo aquela reação. Dai ele mesmo responde: “Eu fiz uma coisa linda”
Não sei se este meu texto de hoje fez muito sentido, mas a conclusão que quero chegar é que a primeira reação as fofuras de uma criança é rir, achar graça, pois de fato é engraçado, mas ao contermos a nossa ânsia de rir, abriremos espaço para a espontaneidade da criança, para que ela consiga carregar esta valentia consigo até mais tarde…..antes de virar adulta.

2 Comments on Não ria (muito) do seu filho

  1. Ticyana Arnaud
    17/07/2015 at 12:09 pm (2 years ago)

    Nossa, Rita, nunca pensei assim. Nunca imaginei que o fato de rir atrapalharia o raciocínio dos meus filhos. E faz todo o sentido. Certa vez o Caio, lá com seus 3 anos falou que sabia nada de olhos abertos poque ele era do signo de peixes. Eu ri tanto, mas tanto, pois foi tão engraçado, tão puro e tão simples que não me contive. Mas agora pensando, eu não me lembro se expliquei para ele que não tinha nada a ver ele nadar de olhos abertos por causa do signo. Enfim, essas observações são ótimas, porque às vezes não damos a chance dos nossos filhos concluírem seus pensamentos pois caímos na gargalhada. Obrigada Rita, foi um super aprendizado. Bjs e ótimas férias!

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  2. Juliana Jardim
    17/07/2015 at 2:43 pm (2 years ago)

    Adorei seu texto de verdade , nunca tinha lido em blog nenhum sobre esse assunto
    A minha filha de quase 3 anos, fala cada coisa…
    Nunca rimos dela , mas quando escapa algum riso ela fica muito muito brava e fala:
    Não ria!!!
    E até chora se damos risada dela por qualquer coisa
    Minha irmã é pedagoga ela diz que é muito difícil segurar o riso lá em casa! hahaha

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