Ontem foi um dia muito especial, o Dia Internacional dos  Profissionais de Enfermagem, uam das profissões que mais admiro no mundo.

Quando entrei em trabalho de parto e minha filha nasceu, Deus enviou tantos anjos para nossas vidas, pessoas que cuidaram tão bem da gente, que nos amaram e que nos encheram de cuidados e carinhos até Bella receber alta 4 meses depois de nascer. Jamais existirão palavras que expressem a enorme gratidão e respeito que sinto pelos profissionais de enfermagem, e inclusive já fiz muitas homenagens a elas aqui no blog, mas hoje farei algo diferente.

Aqui vai uma lista de belas lembranças que guardo dos nossos tempos de hospital. Apenas algumas mais marcantes para vocês entenderem que diferença estas pessoas iluminadas fizeram na minha vida, na vida do meu marido e principalmente na vida da nossa princesa.

  • Uma enfermeira-anjo que segurou minha mão quando cheguei na maternidade e o médico disse que eu já estava com dilatação e seria transferida de ambulância para outro hospital. Ela puxou um banquinho, sentou do meu lado na cama e ficou segurando a minha mão por muito tempo, não lembro quanto.
  • A enfermeira que na maternidademe mostrou onde era a geladeira secreta para eu “roubar” suquinhos, caixinhas de leite e barrinhas de cereal sempre que quisesse 🙂
  •  O primeiro enfermeiro que Bella teve e que me deu parabéns por ter alimentanto tão bem a minha neném, pois ele a achou super “gordinha” para a idade gestacional (810 gramas, haha, bem gordinha né?)

  • A primeira enfermeira que me ensinou a tocar na minha filha. Eu fiz um carinho “normal”, mas o prematuro não tem o sistema nervoso completo ainda, e aquele carinho incomodava o meu bebê, ela delicadamente me explicou como tocá-la, sem fazer com que eu me sentisse mal por ter feito errado.
  • A maneira como todas as enfermeiras da UTI Neonatal sempre seguravam a cabecinha da Bella quando iam ouvir seus batimentos cardíacos e barriguinha. A cabecinha da Bella cabia na metade da palma da mão das enfermeiras e elas fechavam a mão na cabecinha dela, como que segurando um passarinho. A coisa mais linda de ser, e em 4 meses percebi que absolutamente todasseguravam a cabecinha dos bebês da mesma maneira. Pode ser praxe, mas para nós mães era sinônimo de carinho e delicadeza.

Bella com 6 dias de vida, antes de ficar doente
 ** feche a sua mão como a enfermeira estava fazendo, agora imagine que a cabecinha de Bella era metade do circulo da palma da sua mão **
  • As enfermeiras que aqueciam as mãos antes de abrir a portinha da incubadora e tocar na Bella. O bebê fica peladinho e há um choque quando mãos geladas o tocam….a maioria das enfermeiras aquecia as mãos antes de tocá-la.
  •  A maneira querida como elas sempre diziam “Como a Bella é bonita, veja que bebê mais lindo!”. A realidade é que o bebê prematuro extremo não é bonito, as vezes até nos assustamos com a aparência dele, muito pequeno, de pele escura arroxeada, cabelinho raspado, inúmeros fios…..mas as enfermeiras sempre diziam que o meu bebê era lindo…e eu amava ouvir este elogio, pois para mim ela era linda mesmo com aquela aparência tão frágil e muitas vezes assustadora.
  •  Uma enfermeira que sempre fazia massagem nas perninhas da Bella. Ela passava Aquaphor nas mãos e massageava as perninhas, principalmente em uma época em que Bella estava muito doente, antes da cirurgia, e uma das suas perninhas estava muito, MUITO, inchada. De x em x horas ela voltava e fazia mais massagem enquanto conversava com a Bella.
  • As enfermeiras que faziam questão de ter a roupinha de cama da incubadora combinando. Iam até o armário da lavanderia, escolhiam tudo rosa, ou tudo roxinho, algumas pitadas de verde limão e arrumavam a incubadora com tanto amor e zelo que naquelas piores semanas em que Bella estava em estado crítico, o momento de arrumar a caminha era a minha hora favorita do dia.
  • As enfermeiras que sempre olhavam no relógio e cronometravam neuróticamente a hora de virar a Bellinha de lado para a cabebinha não ficar achatada. Sério! Como o prematuro fica deitado o tempo todo e não pode receber colo como um bebe normal, se não virar o bebê periodicamente, a cabeça ficará achatada. As enfermeiras da Bella eram o máximo, viravam o tempo todo. Bella foi carequinha até 1 ano de idade e sempre recebeu muitos elogios pela sua cabeça bem redondinha!
  •  As enfermeiras que comemoravam conosco todos os momentos importantes dentro da UTI. O primeiro leitinho na sonda, o primeiro “quilo”, o segundo “quilo”, ser extubada, etc. Tudo era motivo de festa e eu via que elas ficavam genuinamente felizes com o progresso da Bellinha.
  • As enfermeiras que colocavam açúcarzinho (médico, próprio para isso) dentro da chupeta da minha filha antes de fazer procedimentos dolorosos. Todas tinham esta preocupação. E quando a danadinha da Bella mostrava que amava, as enfermeiras ainda davam mais um pouquinho para compensá-la pela dor. 
  • As enfermeiras que davam bronca nos médicos quando achavam que eles tinham feito algo errado, ou não tinham feito algo que elas achavam necessário. Esta é uma boa lembrança que tenho, pois sempre depois da bronca os médicos diziam nos “rounds”: “Sempre dê ouvidos a uma enfermeira”. Elas são muito respeitadas aqui no Canadá.
  •  As enfermeiras que tiravam um tempinho e escreviam no diário da Bella. Logo que ela nasceu o hospital deu um diário para a Bella, e o livrinho ficava do lado da incubadora, por muitos meses as enfermeiras escreviam no diário, como tinha sido a noite ou o dia, e colavam adesivos coloridos…..era o máximo chegar as 7 da manhã e ver que elas tinham escrito algo ou que tinham batido uma foto com a Polaroid, impresso e decorado a pagina do diario. É um carinho que vai alem das tarefas da profissão, é uma delicadeza que fica para sempre no coração de uma mãe.

  • A enfermeira que bateu boca com o médico que queria que Bella fosse transferida para o Hospital da Criança antes do previsto. Eu tinha acabado de sentar para dar colo para o meu bebê, que entraria em uma cirurgia imensa, cheia de riscos. Meu bebê tão doente, com necrose dos intestinos, que ninguém garantiria o que aconteceria durante a cirurgia, e aquele médico estava fazendo seu papel, a ambulância chegou e o time estava pronto para levá-la embora, mas a enfermeira bateu boca com ele na nossa frente e disse que dali Isabella não sairia, que todo mundo poderia esperar mais meia hora para aquela mãe dar colo para sua filha. Minha heroina, jamais esquecerei da Rosie e de que como ela lutou por mim e por Bella naquele dia. Não podemos prever o futuro e ela quis garantir que nós tivessemos um colinho longo, me deu tempo para chorar abraçada da minha filha e orar para que tudo desse certo. E só depois que eu chorei tudo o que precisava e orei tudo o que queria, ela chamou o time e levou minha panquequinha embora para a ambulancia. 
Bella depois do colo, sendo transferida para outro hospital, para sua cirurgia

  • A enfermeira que empacotou Bella na incubadora depois da cirurgia, que fechou seu corpinho bem fechadinho na cobertinha para eu não ver o quão inchada ela estava. Ela só deixou a cabecinha e os dedinhos de fora. Depois fiquei sabendo que ela tinha feito aquilo para eu não ver que as perninhas, braços e o pescoço da Bellinha estavam MUITO inchados. Como não me ajoelhar em gratidão a uma profissional como esta?????

  •  A nossa enfermeira-anjo Ashley que escreveu um quadro negro especial para Bella quando ela foi transferida para a UTI nível 2. Escreveu tudo o que Bellinha gostava e não gostava para as novas enfermeiras saberem de antemão.

  • Todas as enfermeiras que me traziam cobertas, travesseiros e depois de me empacotarem na poltrona, colocavam a mão no meu ombro como que dizendo “Mais um dia na UTI, hoje tudo dará certo”. Aquela mão no ombro era uma mensagem silenciosa que me fazia sentir um pouco mais confiante na minha jornada de mais de 12 horas de UTI todos os dias.
  • A enfermeira que estava de plantão no dia que Bellinha fez seu primeiro cocô depois da imensa cirurgia. Tinhamos feito uma brincadeira o Bryan e eu, que a primeira enfermeira que visse a primeira “vitória” depois da cirurgia ganharia um prêmio (uma caixa de chocolate chique, que eu levei comigo por 30 dias na esperança daquele ser o grande dia). Eu fui a felizarda que trocou a frandinha aquele dia, mas quando contei para ela ela saiu correndo e pulando e saiu UTI afora gritando “Bella fez cocô, Bella fez cocô”, comigo atrás vibrando feito duas malucas. Ao sairmos da UTI vimos os medicos na secretaria, demos high five em todos e todos comemoramos juntos. Felicidade de um time inteiro que lutou tanto para aquele bebê vencer a necrose, que muitas vezes é fatal.
  •  As enfermeiras que me ajudaram a amamentar a Bella. Não tivemos muito sucesso, pois a fome da Bella depois de 3 meses sem tomar leite era tanta que ela não podia esperar pelo peito, mas todas elas tentaram incansavelmente ensiná-la e por isso serei eternamente grata, por elas tentarem mesmo sabendo que seria dificil.
  •  A única enfermeira rabugenta que bella teve, que no auge da sua doença, quando ligávamos de hora em hora de madrugada, só sabia dizer NO CHANGE, NO CHANGE (nada de novo, nada de novo). Estavamos tão desesperados, tão tristes, tão sem esperança naqueles piores dias que quando ouvimos 3 vezes NO CHANGE, virou nossa piada, dávamos risada de ouvir a mesma frase 8 vezes seguidas naquela noite. Ela não tinha a menor paciencia ou criatividade para falar a mesma coisa de maneira diferente, e por isso tambem se tornou especial, do seu proprio jeito rabujento.
  • As enfermeiras que sempre deixavam a gente dar colinho e fazer canguru, mesmo quando era visivelmente trabalhoso tirar Bella de dentro da incubadora, as vezes por apenas 5 minutos permitidos. Mesmo assim elas eram incansáveis.

  •  As enfermeiras que roubavam todas as roupinhas mais lindinhas e combinando para Bellinha usar. A primeira vez que Bella vestiu um coletinho foi muito emocionante para todos nós. Bebezinhos prematuros não podem usar roupinhas, pois tem inúmeros acessos venosos e os médicos precisam de acesso imediato em algum caso de emergencia, mas quando ela melhava um pouquinho, as enfermeiras a vestiam e nos matavam de emoção. Aqui a primeira vez que nossa princesa usou uma roupinha.

  • As enfermeiras que, mesmo quando não estávamos no hospital, colocavam dentro da caminha o bichinho de pelúcia da Bella. O Vovô Vicente deu este Butters para Bella quando ela nasceu, e ele fazia companhia para ela no topo da sua incubadora de vidro, e depois quando ela foi promovida a mocinha, foi para o berço hospitalar. As enfermeiras trocavam a roupinha de cama, e logo posicionavam o amiguinho ao lado dela.

  •  Quando a enfermeira cuidava da Bella, fazia tudo o que tinha que fazer, e depois empacotava ela bem combinando e ainda colocava a faixinha de flor ou de lacinho por cima do gorrinho, para ela esperar a mamãe bem lindinha.

  • Quando as enfermeiras buscavam o balancinho para Bella se balançar durante o dia. Elas poderiam deixá-la dormindo na incubadora, muito mais fácil, mas no primeiro dia em que entrei na UTI e vi minha filha se balançando fiquei muito emocionada.

A razão pela qual estou publicando estas fotos, algumas delas tiradas em momentos muito dificeis para nós, quando nossa filha estava tão doente, é para mostrar a delicadeza do quadro de um prematuro, e para quem sabe pedir que vocês levantem esta bandeira comigo. Ser prematuro não é só ganhar peso e ir para casa, é lutar pela vida, se não aprendermos sobre todos os riscos da prematuridade, ninguém lutará por melhores condições para estes bebês e estas famílias. Mostrar as fotos da minha filha também mostra o cuidado imenso que toda uma equipe médica e de enfermagem teve todos os dias, temos que tirar o chapéu para estes profissionais que se dooam todos os dias por seus pacientes.

Quando penso em todo o cuidado e amor que recebemos por 138 dias de hospital, uma música sempre me vem a mente, para mim serve como hino de gratidão por estas pessoas tão especiais.

Um Dia Especial (música de Duca Leindecker, lindamente cantada por Tiago Iorc)

Se alguém
Já lhe deu a mão
E não pediu mais nada em troca

Se alguém
Já lhe deu a mão
E não pediu mais nada em troca
Pense bem, pois é um día especial
Eu sei não é sempre
Que a gente encontra alguém

Que faça bem
E nos leva desse temporal
O amor é maior que tudo
Do que todos até a dor
Se vai

Quando o olhar é natural
Sonhei que as pessoas eram boas
Em um mundo de amor
Acordei nesse mundo marginal
Mas te vejo e sinto

O brilho desse olhar
Que me acalma
Me traz força pra encarar tudo
O amor é maior que tudo

Do que todos, até a dor
Se vai quando o olhar é natural
Sonhei que as pessoas eram boas
Em um mundo de amor

3 Comments on Um Dia Especial

  1. Alessandra Haak
    13/05/2015 at 5:56 pm (2 years ago)

    Rita
    Nunca vi profíssionais tão dedicadas como as que você teve em um momento tão delicado e eu diria uma prova durissima. Sempre acho que as pessoas nascem para fazer algo específico e ainda bem que elas estavam no lugar certo. Linda história.
    Um abraço
    Alessandra Haak

    Reply
  2. Wera Corrêa
    14/05/2015 at 12:40 am (2 years ago)

    Chorei ao ler o teu relato e me fez recordar tudo que passamos. Lembro do dia da cirurgia em que fiquei de joelhos rezando, enquanto a cirurgia era realizada e todos os dias angustiantes no hospital, mas agora temos a nossa Bellinha, essa menininha amada que alegra as nossas vidas.

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  3. Anonymous
    15/05/2015 at 2:36 am (2 years ago)

    Chorei, chorei, chorei….como não se emocionar com tamanha luta, com esse carinho todo e em ver a vitória que tiveram!!!

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