Achei super interessante este texto sobre uma brasileira expatriata analisando a onda de brasileiros querndo se mudar do Brasil. Como expatriada que também sou, esta análise é super válida. Eu construi a minha vida no Canadá quando era muito mais jovem – tinha 23 anos de idade quando vim para cá – e exatamente por ser jovem, ainda fazia estágio de faculdade, morava na casa da minha mãe e não tinha os luxos de quem se sustenta sozinho na classe média brasileira. Talvez por isso não tenha sentido um choque quando cheguei aqui.

Um trecho do artigo:

“Se você tem porteiro, empregada, babá, folguista e despachante, pense antes de fazer as malas e tirar os filhos da escola, rumo ao exterior. Para sair do Brasil, você precisará rever alguns conceitos.”
Não acho que a vida no exterior é melhor em todos os sentidos do que no Brasil, definitivamente não: não tenho a convivência que gostaria com a minha familia, Bella cresce sem seus avós, tios e primos e isso é super triste. Não posso falar a minha lingua todos os dias, não posso ter um convívio com os amigos que construi no Brasil, não posso usufruir de todas as maravilhas , culturais, culinárias e do verão brasileiro. Há quem more fore do Brasil e diga que nunca, jamais, sente saudade de nada, eu não, sinto saudade de tudo, todos os dias. Nunca passa um dia em que eu não pense no Brasil, na minha familia, nos meus amigos e em tudo de bom que o Brasil tem. Acho que este dia nunca chegará. Crio minha filha como uma brasileirinha, do jeito que fui criada, com a alma de brasileira que tenho e que nunca será mudada, mas a vida no Canadá é boa demais para mim, eu não posso reclamar.
Tenho segurança para mim e minha família, e sair na rua sem medo de NADA não tem preço. Saio sozinha a noite, dirijo para lá e para cá, passeio com minha filha no meio da floresta no meio da cidade sem medo de ser importunada….talvez por um urso, mas a probabilidade é pequena. Minha filha assim como a garotinha do artigo, também vai para a escola pública, e quando ficamos doentes, vamos ao médico que faz parte do sistema de saúde do SUS canadense. Isso não tem preço.
Mas cadê o preço de viver aqui então, se tudo é tão maravilhoso?
Quais os pontos ruins, afora viver longe da família, que é a tortura número 1?
Afora se você for da classe super AA canadense, com salários enormes, você não terá as mordomias que temos no Brasil. As facilidades que estamos acostumados no Brasil não existem aqui. Você até pode se dar a uns luxos de vez em quando, mas terá que apertar o orçamento cortando outras coisas.
Vejam bem, minha familia aqui é classe média. Em Vancouver é raro você ver familias onde marido e mulher não trabalham, como o custo de vida aqui é muito alto, todos trabalham. Temos nossa casa própria (financiamento), temos um carro apenas, que eu uso, meu marido pega o onibus para trabalhar, e temos os luxinhos materais de poder comprar o que precisamos, pois bens materais aqui são baratos (comida não, está cara). Mas o luxo também acaba ai.
Qualquer serviço será altamente cobrado.
Não tiro a razão, pois acredito que somos todos iguais e por quê a diarista tem que ganhar menos do que eu? Nada a ver! Eu adoro saber que profissões mão na massa são bem remuneradas.
Mas aí começa o declínio dos hábitos que temos no Brasil e não temos aqui.
Moro em uma casa relativamente grande, com 2 pisos, 3 banheiros, pátio, e ninguém para ajudar. Meu Deus, aqui diarista é luxo. Ano passado até tentei contratar uma diarista, acho que a tive por uns 6 ou 8 meses, mas depois desisti, pois o valor que meu orçamento me permitia pagar, apenas dava 3 horinhas de faxina, que numa casa deste tamanho não era suficiente para ter a casa inteira limpa digna de uma diarista. Parei de pagar, melhor eu mesma faxinar.
Uns tempos atrás tivemos um residente indesejável aqui em casa, um esquilinho que resolveu morar no nosso sotão. Sabe quanto custou para contratar alguém subir numa escada e colocar uma micro portinha de madeira no buraquinho do telhado? 600 dólares por menos de 40 minutos de serviço. 
Manicure?  80 dólares por uma bem feita que durará ao menos 2 semanas,
Uma ruim que durará 3 dias custará $ 20 com sorte.
Dentista? Caro.
Um bom dentista? Caríssimo.
Lavar o carro por fora e por dentro no estilo brasileiro?
$150 no mínimo, e ainda assim não é perfeito.
Babá por uma noite para você e seu marido sairem para ir ao cinema e jantar fora?
O mesmo valor dos 2 ingressos e dos dois jantares juntos.
Não é fácil, viu?
Mas com o tempo, você se acostuma.
Eu não sinto falta de luxos para mim, sinto sim falta de ajuda com a casa, pois sou dona de um negócio, sou mãe e não tenho muito tempo para faxinar. Mas ….eu faço devagarinho e a casa está sempre relativamente limpa e organizada.
Quando posto fotos aqui no blog, no Instagram ou no Facebook, tudo deve parecer um mar de rosas. Fotos lindas, ruas lindas, roupas lindas da minha filha, algumas viagens, eletrodomésticos e eletrônicos de última geração, de fato, nada disso é mentira ou exagero, mas o que a foto não mostra é que só posso ir ao cinema sozinha, pois não temos babá. Não mostra que acordo as 5:30 da manhã para fazer lancheira da filha, arrumar as camas, botar roupa para lavar, organizar as bagunças, limpar o pátio, varrer a cozinha, deixar a comida do jantar meio preparada. O banho dura 5 minutos, tempo para maquiagem, escova, ir na manicure não existe. Quando vou ao Brasil me sinto uma pessoa super humilde….hahaha….verdade, pois eu não estou acostumada a andar toda maravilhosa pelo shopping. Minhas mãos geralmente tem cheiro de alho –  ok, uso um creme caro da Loccitane para disfarçar – mas mesmo assim. Me sinto diferente quando vou para ai. Já aqui me sinto mais normal, olho para os lados e vejo que as outras mulheres também andam malucas por ai, descabeladas com os filhos debaixo do braço para lá e para cá.

A realidade aqui é que você ou seu marido tem que ser “handyman”, ou seja, tem que aprender a fazer estes serviços da casa. Arrumar as coisas que quebram, trocar peças e aprender a instalar coisas que no Brasil, contratamos alguém para fazer. Pintar as paredes? Faça você mesmo! Trocar a lâmpada da máquina de secar? Compre da internet e faça você mesmo? Comprar móveis e montá-los? Faça você mesmo. Dificilmente você contratará alguém para fazer para você, a não ser que esteja disposto a pagar…e muito.

Como diz o artigo, morar fora não é para todos, você terá que abrir mão de muitas coisas para ganhar outras, terá que abrir mão dos seus conceitos e dos luxinhos que estamos acostumados no Brasil.
Mas como tudo na vida, há o lado bom e o ruim.

3 Comments on Não é para todos

  1. Anonymous
    16/04/2015 at 6:07 pm (3 years ago)

    Rita, querida!

    Faz tempo que não comento no seu blog. Também ando ocupada (que loucura esta vida, trabalho em Pelotas e "moro" em Floripa!). Achei demais o seu post. Como você é sensata. Sempre sinto que você consegue mostrar o mundo real, com um glamourzinho que todas nós merecemos, né? Com relação à morar fora, sei pela minha experiência que é isso aí. No Brasil, nos acostumamos com "luxos", mas o certo mesmo é que todos ganhem bem. Então, se quer o seu luxinho tem que desembolsar. Tenho casa e uma faxineira, que passa roupa (isso sim, sei que é luxo para o padrão Canadá/ EUA, "passar roupas"!) e sou muito grata por poder ter a ajuda dela. Sei que pago bem, mas sei que ela merece pois o trabalho não é fácil. Enfim, como vc disse, tudo são escolhas, e não dá para ter o melhor dos dois mundos….Um super abraço, Julia

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  2. Londres com Crianças
    16/04/2015 at 7:21 pm (3 years ago)

    Rita eu me sinto tambem humilde diferente sei la, parece que não me encaixo. Acho engraçado quando me perguntou mas que roupa levo para ir a europa..a resposta eh o que quiser pq aqui tanto faz

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  3. nanda
    18/04/2015 at 1:30 pm (3 years ago)

    Rita, no fundo eu acho que essa consciência que você tem faz com que você aproveite e valorize ainda mais os pequenos luxos que se dá. Dá pra sentir nas suas "pequenas felicidades" e outros exemplos que leio no seu blog. Imagino não ser fácil cuidar de uma casa como a sua, com filha, cachorro, emprego fora. Mas os outros itens compensam, né? Realmente não se pode ter tudo. Claro que eu trocaria facilmente pela segurança. Moro em cidade do interior e vivo relativamente segura, nunca morei fora mas fiz algumas viagens que já me fizeram pensar. Infelizmente não conseguimos o juntar o melhor dos dois lugares rs Seria maravilhoso, né? Beijos

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