Este é um daqueles assuntos sobre a prematuridade que ninguém entende, afora a mãe prematura.
Falar ou não falar com alguém?
Eis a questão.
O
bebê nasce e a mãe prematura se sente muito sozinha. Até ontem ela
estava grávida curtindo a sua barriguinha e os preparativos para a
chegada do bebê, e o risco de um parto prematuro sequer passava pela sua
cabeça, e daí puft, o bebê nasceu.
Correria, desespero, preocupação, tristeza, euforia, felicidade e um coração despedaçado de uma mãe.
Quando
a Bella nasceu com apenas 25 semanas de gravidez, eu passei 2 dias em
choque. TÃO BOM! Via o meu bebê ali dentro da incubadora e não tinha
noção do perigo dela estar do lado de fora. Saber eu sabia, mas o choque
era maior e não deixava me desesperar. Lembro de entrar dentro da UTI
sozinha tarde da noite e conhecer o primeiro enfermeiro da Bella. O
rapaz ficou impressionado com o meu estado, minha barriga tinha
praticamente desaparecido, eu caminhava normalmente e estava magrinha
como antes. Lembro de pensar o quanto não era justo eu ter que entrar
para visitar minha filha sem ninguêm saber que eu estava grávida atè
aquela manhã. Eu queria estar gordinha e gravida, e estava ali magrinha,
indo visitar minha filha no escuro da UTI no meio da madrugada. Parecia
uma intrusa, o que aquela pessoa estava fazendo ali?

No escuro da noite, segurando os pesinhos do meu anjo de 600 gramas na época
Com o passar dos dias, semanas e
meses, passei da fama de “mãe de aço”, como os médicos me apelidaram no
início, para mãe “caindo aos pedaços”, literalmente. Conforme minha
filha foi adoencendo, meu estado emocional foi deteriorando e a
preocupação dos médicos com relação a mim começou a aumentar:
“Mãe triste não produz leite. Não pode”
“Vamos marcar uma visita com a assistente social para vocês conversarem?
“Posso chamar a psicóloga para conversar contigo”
“Vou te levar até a salinha dos médicos para você dormir e se recuperar ok?”
” Não venha visitar a Bella amanhã, fique em casa e descanse.”
“12 horas de UTI é muito tempo, não precisa, vai para casa mais cedo”
Não.
Não.
Não.
Não.
Não.
Não.
Lugar de mãe de prematuro é dentro da UTI. Quanto mais tempo melhor, e no meu caso, quanto menos tempo eu falasse, melhor.
Com quem falar? Com quem desabafar?
Com a psicóloga que não tem filhos?
Com a assistente social mãe de dois filhos nascidos à termo?
Com a sua amiga grávida que não quer falar sobre este tabu, o parto prematuro?
Com a sua mãe, que deve estar o mesmo caco que você?
Com seu marido que por mais pai que seja, nao é mãe?
Mãe prematura não tem com quem falar, ninguém entenderá o seu sofrimento. Afora outra mãe prematura.
E pior ainda… o que falar?
Você
mal consegue processar os seus sentimentos e toda a bagagem de
informação que você tem que lidar sobre a ficha médica do seu bebê,
portanto falar soa como algo tão desnecessário.
Hoje eu
não tenho problema em falar sobre a prematuridade da Bella, mas
conversar sobre isso enquanto o seu prematurinho está no hospital é uma
tarefa massacrante, para dizer o mínimo.
Descobri um
trabalho voluntário muito legal feito por duas mães em Calgary, no
hospital Foothills. Uma destas mães teve um bebezinho prematuro chamado
Sebastian, que teve absolutamente todos os problemas que um prematurinho
pode ter, e por um daqueles milagres da vida, hoje cresce sem sequelas.
Ao se sentir imensamente sozinha durante o processo de recuperação de
Sebastian, esta mãe resolveu criar um bate papo de 1 hora na salinha de
visitas da UTI 2 vezes por mês, onde ela traz chá e biscoitos, e na
companhia da assistente social, tenta recrutar mães dentro da UTI
naquele momento para conversar.
Lembro que recebi o
convite cedo da manhã e o chá somente aconteceria às 7 da noite. Passei o
dia inteiro com dor de estômago, me sentindo mal antecipando a pressão
de ter que conversar. Pensei: “Chegarei lá e falarei o quê exatamente?”.
O
bate papo acabou sendo agradável, não houve pressão para que eu e outra
mãe falasse, aquela mãe tomou a iniciativa de contar a história do
Sebastian e escutei a tudo pensando “esta sou eu”. “Será que serei esta
mãe um dia? Que terá a oportunidade de contar a sua história para outras
mães? Uma história de final feliz?”
Vocês maes prematuras sabem sobre o que estou falando.
O texto de hoje foi inspirado por uma história muito triste
que vocês devem ter ouvido falar semana passada. Não posso imaginar o
que esta mãe está passando, principalmente sua revolta, o meu único
desejo era poder caminhar até ela e dar-lhe um abraço de urso e deixar
aquela mãe…..não falar nada.
O que falar?
Meu coração está com ela.

2 Comments on Prematuridade: Falar ou não falar?

  1. Flaviana Rocha
    11/11/2014 at 11:00 am (3 years ago)

    Me vi nesse post. Meu baby nasceu com 37 semanas, mas com baixo peso (1515kg) e precisou ficar na UTI para ganhar peso. Ele estava bem, mas o fato de não estar comigo, foi bem amrcante pra uma mãe de primeira viagem. O susto dele nascer e de ir para a UTI, sem eu entender direito o que estava acontecendo. Não tem como falar, de verdade, com alguém. Parece que as pessoas não entendem o que a gente diz. É uma coisa só nossa…

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  2. Mayaia
    13/11/2014 at 8:26 pm (3 years ago)

    Rita, acompanho o seu blog há um tempinho, mas nem sempre dá pra comentar. Estou emocionada com toda essa série sobre Prematuridade, porque de certa forma lembro de mim e da minha mamãe, eu nasci prematuramente, quase aos 7 meses de gravidez, pesei 800 gramas, isso há 22 anos atrás. Onde eu morava não havia tantos recursos e eu ter sobrevivido foi um milagre. Converso muito com minha mãe e ela me conta que muita gente dizia que eu não ia sobreviver, como foi lidar com a prematuridade, os comentários horríveis ou desnecessários falando da minha aparência ou coisa do tipo… De alguma forma me identifico com a sua história, com a Bellinha, vencer a prematuridade é um desafio, você é uma mãe maravilhosa e a Bella é uma princesa linda!

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