Je me vide de moi-même. (Jan Fabre).
Entrou na autoestrada lentamente, cuidando para ver se não
vinha nenhum carro pela outra pista e foi. Aumentou a rotação do motor aos
poucos e atingiu a velocidade regulamentar para não congestionar o trânsito e
para não ser engolido por um caminhão.
Enquanto avançava o percurso, percebeu que foi perdendo o
medo da estrada e ganhando mais confiança em seus sentidos. O carro já estava
amaciado e o asfalto passou a ser meu íntimo conhecido.
Sem perder a prudência, foi aumentando a velocidade e, aos poucos,
a pista da direita já não lhe servia de nada senão, e apenas, para aqueles que
estavam em sua frente darem o lado para facilitar seu acesso pela esquerda.
Milhares de quilômetros já vencidos, percebia que quanto mais rápido andava,
mais chão ganhava e isso lhe permitiria chegar mais rapidamente ao seu almejado
destino.
A música que tocava no rádio já estava cansativa. As paradas
para o café começaram a consumir os minutos, de modo que só admitiu interromper
a viagem para reabastecer o carro.
Quando notou, estava a 140km/h em uma estrada trafegada entre
80 e 110, no máximo. Já estava exausto da viagem, temendo uma colisão e estragos
inevitáveis.
Antes que o pior acontecesse, parou o carro no acostamento e
ali ficou durante dias pensando em sua vida e na velocidade que havia imposto a
ela. Estava querendo recuperar todo o tempo perdido, mesmo sem saber que tempo
foi esse que perdeu.
Já não sabia mais se o destino que planejara era onde
realmente queria chegar ou se estava disposto a percorrer todos os milhares de
quilômetros que outros percorreram para chegar naquela que, diziam, ser a
melhor praia do mundo.
De tão consumido, começou a pensar que seu mar, por vezes
revolto, por vezes sem cor definida, poderia ser tão ou mais recompensante e
apaziguador que as águas cristalinas que um dia sonhou para si, definindo-as
como meta vital. Percebeu essa realidade pelo simples fato de o mar estar ali
ao seu lado, disponível sem que precisasse rodar tanto para chegar.
Saiu do acostamento e pegou o rumo de volta para casa. Desta
vez está na pista da direita e pretende seguir a 80km/h. Tem consciência de que
irá demorar mais tempo para voltar, mas está em paz.
Resolveu fazer quantas paradas forem necessárias para manter
sua sanidade física e mental. Seu carro está muito pesado e, a cada interrupção
que faz, deixa uma bagagem pelo caminho.
Agora que já foram todas as malas e só tem a roupa do corpo,
abriu os vidros do carro e quer permitir que o vento leve alguns pensamentos.
Quer se esvaziar de si mesmo. A verdade é que estava em uma velocidade muito
alta, correndo atrás de coisas que, no momento, são muito difíceis de atingir
(e talvez sejam tão difíceis porque já não as quer o suficiente).
Ainda assim, precisa ter certeza de que tomou a decisão certa
de  desistir e voltar. Crescemos em  um mundo que nos ensina a nunca recuar.
Desistir da batalha? Jamais.
Jamais, por quê? Estava denso demais, sobrecarregado demais.
Precisava se esvaziar.
Vou me esvaziar de mim mesma e me encontrar novamente. Não
sei quanto tempo poderá levar esse ritual sabático, mas sei que preciso.
Enquanto isso quero ouvir meu silêncio e não me sinto apta a transformá-lo em
palavras.
Com gratidão, me despeço desse espaço e das pessoas que
identificaram meus questionamentos, também, como seus.
Até qualquer hora!
Maria, Maria

7 Comments on Um vazio necessário

  1. Wera Corrêa
    29/05/2014 at 2:41 pm (4 years ago)

    É com pesar que leio sua decisao de dar um tempo nos Botoezinhos, mas foi um prazer ler sua coluna ao longo dos meses e, se a leitura nao estiver incorreta, vislumbrei nesse ate breve que nao é um adeus. Um dia voltarás para nos presentear com outros posts. Quem sabe esporadicamente, sem aquele compromisso. As vezes temos que nos dar um "ritual sabático" faz parte. Beijo.

    Reply
  2. Paulinha
    29/05/2014 at 3:36 pm (4 years ago)

    Sentirei falta… #mimimi
    =/
    Porém, até logo!
    =)

    Reply
  3. Gustavo
    29/05/2014 at 4:35 pm (4 years ago)

    Lastimo também, virei grande admirador da Maria, Maria.

    Reply
  4. Sandra Nogueira
    29/05/2014 at 8:01 pm (4 years ago)

    Sábias palavras…recuar é tão inteligente quanto avançar, a sapiência é vista ao escolher o momento…até breve…

    Reply
  5. Bere
    29/05/2014 at 10:02 pm (4 years ago)

    faço minhas as palavras da Sandra Nogueira!!!!
    …..lamento por nós….admiradores e fãs da Maria Maria…..até qualquer hora então….bjo

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  6. rita
    30/05/2014 at 12:36 am (4 years ago)

    Ainda estou meio inconformada com esta decisão mas tudo bem
    hahaha

    Brincadeira, tu sabe.
    Mas deixara muita saudade, amei cada uma das colunas e fico na esperança de voltares um dia.

    A senha do blog tu ja tens!

    beijos, beijos, já saudosos
    Rita

    Reply
  7. ROSANGELA TOLOTTI
    30/05/2014 at 1:15 am (4 years ago)

    "María, María, es un don, es el sueño
    El dolor y una fuerza que nos alerta"
    Lembrando LA NEGRA e endossando as palavras da Sandra Nogueira e da Bere, te digo com um até breve: não abandona o teu dom!

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