Será dia do trabalho, ou dia
do trabalhador?
Nos meus tempos de colégio,
nunca fui uma aluna muito aplicada, aliás, meus companheiros de classe
costumavam dizer que aquela música do Tim Maia, Sossego, era feita para
mim, contudo, cantavam da seguinte forma, em minha “homenagem”: ora bolas,
não me amole, com esse papo de estudos, não tá vendo? Não to nessa. O que eu
quero? Sossego.
Pois bem, essa foi a fama
que carreguei durante toda a fase escolar e universitária, em que pese a
maturidade ter chegado até mim (melhor tarde do que nunca), expulsando aquela
que antigamente só queria saber de sombra e água fresca, para dar espaço
a uma pessoa trabalhadora e batalhadora. Ela demorou, mas chegou.
Hoje posso dizer, com muito
orgulho no coração, que sou uma boa e nobre trabalhadora, dou o meu melhor para
atingir os fins a que me propus ao aceitar o trabalho que tenho e para fazer
jus à contraprestação que recebo todo o final de mês.
Contudo, às vezes o cansaço
me consome. Acabo fraquejando em função do sono; do estresse; dos colegas que
não trabalham bem e geram retrabalhos; de eventuais injustiças que presencio;
da vontade de curtir o ócio sem horários e, seguidamente, penso que seria bem
melhor se eu não precisasse trabalhar.
Tudo seria mais fácil! Eu
dormiria horas mais dignas, teria mais tempo para cuidar da minha saúde, da
minha casa, da minha família, mais tempo para lazer, enfim, seria muito mais
prazeroso e infinitamente, menos estressante.
Pois foi em uma noite
dessas, em que eu estava tendo esse tipo de “desejo” e me considerando uma
pessoa muito penalizada por ter de trabalhar tanto e ter tão pouco tempo para o
prazer, que recebi um pequeno grande aviso do universo (ou seja lá quem for que
estava tentando abrir meus olhos): estava assistindo um filme em que a neta do
dono de um restaurante, ao ver o avô arrumando mesas, estendendo toalhas,
mexendo para lá e para cá com alguma lentidão/dificuldade em função da idade
avançada, oferece ajuda. O avô pára o que está fazendo, sorri e agradece,
dizendo não precisar de ajuda, pois o trabalho é uma benção.
Do que eu estava reclamando
mesmo? Que estou entrando na fase mais produtiva da minha vida, que meus braços
e pernas funcionam perfeitamente, são fortes, aliás, e que meu cérebro tem a
capacidade de trabalhar por horas e horas sem muito esforço de minha parte?
Quantas pessoas não
gostariam de poder se locomover como eu me locomovo, sem depender de nenhuma
ajuda para ir ao trabalho e “pegar na enxada” da forma que eu posso pegar?
Quantas pessoas não podem exercer um trabalho intelectual por terem nascido com
alguma deficiência, ou porque não tiveram acesso ao estudo? Eu posso tudo e sei
que a maioria daqueles que reclamam do cansaço e esperam a semana inteirinha
para a chegada do final de semana, também pode.
Esta semana o Ministério
Público do Trabalho do Rio Grande do Sul promoveu um evento sobre inserção de
pessoas portadoras de autismo no mercado de trabalho. Fiquei sabendo dessa
notícia por acaso, pelo rádio.
Talvez não tenha sido o
acaso.
O filme e a notícia fizeram
eu lembrar de agradecer pelas faculdades do meu corpo, pelo trabalho que eu
tenho, mas também para lembrar que deve existir espaço para todo mundo exercer
algum ofício e que o trabalho enobrece, sim, a alma, apesar do esforço.
Meu feriado em homenagem ao
dia do trabalho servirá para descanso e lazer. Mas sexta-feira, vou trabalhar
com garra e sem preguiça no corpo, mesmo que o final de semana esteja logo ali.
Um dia de cada vez.

3 Comments on Trabalhar, trabalhar e trabalhar

  1. Wera Corrêa
    01/05/2014 at 6:02 pm (4 years ago)

    Dizem que o trabalho enobrece o homem… e cansa. Acredito que férias, feriados e finais de semana sao tao bons porque é uma pausa no trabalho. Tivéssemos somente dias de "pernas para o ar" em dois toques estaríamos entediados.

    Reply
  2. rita
    02/05/2014 at 3:01 am (4 years ago)

    Que lindo, amei demais a coluna de hoje.

    É verdade, nós reclamamos de acordar cedo, de chegar em casa tarde, dos colegas que não cooperam, disso e daquilo, mas é só você ficar doente um dia que fica pensando "Preferia levantar e ir para o trabalho". A gente cansa, mas a gente se faz útil, sai de casa, vive a vida, recebe um dinheirinho para investir nas coisas que gostamos, sem trabalho não há este outro lado da moeda.

    Aqui no Canadá se ve direto pessoas especiais trabalhando, em lojas, supermercados, sorriem para todos, tu enxerga nos olhos deles que trabalham com prazer, um prazer que nós deixamos de lado na maioria dos dia.

    Enfim, ótima reflexão sobre o dia de hoje.

    Beijo, beijo
    Rita

    Reply
  3. Paulinha
    02/05/2014 at 11:28 am (4 years ago)

    Li ontem a coluna, mas fiquei com uma mega preguiça de comentar! Afinal era feriado! Hahuahua…

    Tens razão, o trabalho com certeza enobrece a alma, daqueles que vivem/pensam/enxergam assim… outros só querem ver a cor do dindin no fim do mês.
    Também nunca fui fã dos estudos… tanto q fiz uma faculdade 'fácil' e por sorte, muita sorte, passei num concurso público tb fácil… e sou feliz assim! Às vezes tenho vontade de chutar o balde, mas quem nunca?!
    Vamos indo, um dia após o outro, colocando em prática nossos sonhos e chuliando pela chegada do findi/feriado/férias!
    =)
    E amanhã já é sábado!

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