Não desconsidero os bons pais que andam por aí, eles estão em
toda a parte, mas não canso de afirmar que o meu é o melhor. Ele tem o dom de
estragar os filhos e agora os netos. Desfaz o castigo, ameniza as ordens
maternas, enxerga seus filhotes, já adultos, como verdadeiras crianças que
precisam de colo, atenção e muito mimo; tem certeza de que é capaz de resolver
qualquer problema e, enquanto não acha a solução, não descansa. Peca sempre
pelo excesso, jamais pela falta.
Há muitos anos atrás e quando falo em “muitos”, pensemos em
uns 20 anos atrás, meus pais colocaram eu e minha irmã em um ônibus e, juntas,
fomos para o interior visitar nosso priminho que ainda não tinha 1 ano de
idade. Fazíamos isso com frequência, era uma viagem que durava 3h e no domingo
já estávamos em casa novamente. Adorávamos a função.
Acabou o final de semana e estava na hora da volta. Naquela
época não existia celular (houve um tempo em que essa maravilha não
existia????). Pegamos o ônibus das 15h e chegaríamos às 18h e lá estariam
nossos pais e meu irmão, na época com 5 anos de idade, na rodoviária nos
esperando. Aliás, lembro que, naquela ocasião, o combinado era irmos nós os 5
jantar no Mc Donald’s! Esse era um evento quase tão incomum quanto o celular.
Adorávamos!
Pois bem, já tínhamos viajado por mais da metade do caminho,
faltava 1 horinha para chegarmos em casa e todos os veículos começaram a
diminuir a velocidade e, aos poucos foram parando e desligando os motores.
Importante lembrar que naquela época não havia caos no
trânsito, tranqueira não era algo comum e ficamos, todos os passageiros do
ônibus, bastante surpresos com a parada.
Mais de horas se passaram e nada de seguir viagem, estrada
muito parada e super engarrafada. Filas e mais filas de carros, caminhões,
ônibus, etc. As pessoas já estavam caminhando pelo asfalto, conversando e
espreitando, até que veio a notícia de um grave acidente envolvendo um carro e
um caminhão. O socorro fora chamado, mas já era tarde e a vítima não resistiu.
Eu tinha uns 9 anos de idade e minha irmã, 14 para 15. Só o
que eu queria era estar em casa. Mas notícias vieram dando conta de que a
estrada não seria liberada tão facilmente, pois o caminhão estava atravessado
na pista e a empresa não queria perder a carga que transportava, então seriam
necessários outros vários caminhões, guindastes (ou sei lá eu que tipo de
suporte) para levantar o veículo tombado.
Resumindo: passaríamos a noite na estrada e o trânsito só
seria liberado no dia seguinte às 8h da manhã. Hoje, isso é inconcebível com
tanta tecnologia e meios de comunicação disponíveis, mas naquele século, digo,
naquela época, foi plausível o tempo previsto.
Àquelas alturas, já estava anoitecendo, nossas bolachinhas
para a viagem já haviam acabado e só o que nos restava era ouvir a conversa das
pessoas na nossa volta. Alguns estavam adorando o ocorrido, pois não teriam que
trabalhar no dia seguinte; outros, viraram para o lado e dormiram. Por sorte, havia
uma senhora sentada no banco em frente ao nosso. Ela percebeu que estávamos
sozinhas, puxou conversa e procurou amenizar a angústia de duas irmãs
apavoradas com o fato de estarem presas na estrada e longe de casa.
Bom, minha irmã se acalmou e também virou para o lado e
dormiu. Pobre de mim: muita pequena, com os olhos arregalados no escuro do
ônibus, já nem sabia a quantas horas andávamos, só pensava que se minha avó
estivesse junto, eu não estaria tão assustada -seguidamente eu e ela viajávamos
de ônibus e ela era a mãe da minha mãe, como não me sentir segura estando de
mãos dadas com a mãe da minha mãe? Querem fortaleza maior que essa?-. Contudo,
quem estava ali comigo era minha irmã e ela já estava no quinto sono.
Paciência, pensei. Vou ficar acordada cuidando de mim
e dela. Estava morrendo de medo, não enxergava nada, a não ser luzes distantes
pela janela; dentro do ônibus um breu pairando no ar, ao som de roncos
estereofônicos de alguns companheiros de viagem.
Era para chegarmos em casa por volta das 18h e já passava da
meia noite. Como eu queria minha casinha…
Eis que do nada vejo um vulto entrando no ônibus, vi que era
um homem, mas não enxergava o rosto. Logo ouvi a voz mais doce de todas
chamando pelo meu nome e pelo nome da minha irmã. Era o meu pai, o meu pai
herói!
Gritei, pai, to aqui! Nossa que alívio, meu pai nos
resgatou. Pegou nós duas pela mão, mais aquela gentil senhora que nos cuidou,
além de um passageiro de outro ônibus e todos entramos na caravana salvadora do
meu pai, rumo a nossa cidade.
Como ele fez para chegar lá se as duas pistas da estrada
estavam interrompidas, de modo que nem a 
Polícia Rodoviária estava conseguindo acessar? Não sei, pois meu pai é
herói. Ele pegou nosso Opala marrom, deixou minha mãe na rodoviária (vai que
chegasse mais alguma notícia), pegou o rumo do trecho onde ele imaginava que
estávamos e foi cortando mato, atravessando pinguelas e barragens, mas ele não
deixaria suas crianças desprotegidas. E não deixou.
Graças ao heroísmo do meu pai, dormimos no conforto de nossas
camas e envolvidos no carinho de nossa família.
Quando chegamos na rodoviária, minha mãe quase nos sufocou de
tão forte que era o abraço. Com certeza era de alívio.
Em casa, meu irmãozinho já dormia, sem nem saber o que havia
ocorrido. Minha avó, sentada na cama, fazendo o mundo funcionar pelo telefone,
já sabia o nome de todos os policiais rodoviários e dos funcionários da estação
rodoviária.
E assim, foi uma das aventuras mais fortes da minha infância,
fomos deitar para dormir
às 6h da manha.
Meu pai não é o Super Homem, nem o Batman ou o He-Man.
Ele é muito mais, ele é um herói, não de aço, mas de carne e osso, o melhor de
todos. A força dele “entre rude e delicada” protege suas crianças sempre que
julga necessário. Fazer ele entender que agora não precisa mais de tanta força?
Para que? Se de brinde vem o carinho mais tenro de todos os tempos…

5 Comments on Meu pai herói

  1. Paulinha
    17/04/2014 at 1:44 pm (4 years ago)

    Que história! Imagina a preocupação deles!

    E esse teu 'super pai', consegue agregar um pouco desse afeto/amor/preocupação em todos os que o rodeiam!
    Não só teu pai, mas essa família tem um pedaço bem querido no meu coração!
    =)

    Reply
  2. Bruna
    17/04/2014 at 4:35 pm (4 years ago)

    Ai gente! Que fooofo! <3
    Paizão esse! Nossa! Nem sei o que comentar, de tanto que me contagiou de coisas boas! <3

    Reply
  3. Rosângela Tolotti
    17/04/2014 at 5:33 pm (4 years ago)

    Ter seu próprio herói ao alcance das mãos e do coração… não tem preço! Também tive o meu!

    Reply
  4. Vicente Correa
    17/04/2014 at 6:34 pm (4 years ago)

    Parabéns pelo texto e pelo Pai herói que tens.

    Reply
  5. Anonymous
    18/04/2014 at 12:24 am (4 years ago)

    Mana… Depois de tantos anos sem noção da minha "falta de noção" por ter virado pro lado e dormido, me desculpa? Te amo – te adoro.

    Reply

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