Millet foi um dos maiores representantes do realismo na
França. Detestava a cidade e em algum momento de sua vida, abdicou dos ares
urbanos para viver no campo e se dedicar a pintura. Suas obras, marcadas pela
ilustração de camponeses, representam, ainda nos dias de hoje, a integração do
ser humano com a natureza. Vejam bem, meu conhecimento é mínimo sobre o
assunto, o Wikipédia poderá informá-los, melhor que eu, que Millet foi um dos
fundadores da Escola de Barbizon, entre tantas outras peculiaridades
importantes que os olhos desta leiga não atentou.
Minhas avós, duas irmãs filhas de pais libaneses, tinham,
cada uma, uma réplica de três telas de Millet, que reproduziam a semeadura e a
colheita. A terceira obra dessa “série”, acho que era algo que se referia a uma
prece em agradecimento à colheita.
Atualmente, os quadrinhos de Millet estão, cada um, com a
respectiva filha: minha mãe e minha tia, já que não temos mais nossas “turquinhas”
por perto.
Guardamos com carinho aquilo que foi deixado por quem já
foi. Não se deve guardar tudo… Não faz bem, mas ao menos algumas
lembrancinhas, coisas que nos remetam a um passado bom, a uma presença
carinhosa, um conforto diante da saudade que se impõe.
E lá estão pendurados os “quadros de Millet”, cada um em
sua nova casa. A família, sem suas matriarcas, está se adaptando aos poucos. Na
medida em que o tempo passa, percebemos, alguns mais tarde do que outros, que
se não formos nós, os filhos e netos, a promoverem os encontros, iremos nos
afastar. Agora, nós somos as raízes e, proliferar os costumes, afagos e
aglomerações, depende de nossa vontade.
Sei que não será igual. Muitas pessoas já não estão mais
aqui, o que faz com que, cada vez mais, o número de pratos na mesa seja
reduzido. Não é fácil. Em compensação, outros estão chegando. Refiro-me aos
filhos dos neto das turcas e logo teremos crianças correndo pelo pátio e para
esses pequenos, as matriarcas serão minha mãe e minha tia.
O que quero dizer (e aceitar) é que a vida é um ciclo sem
fim, já dizia a música do Rei Leão, e as coisas não acabam, mas se modificam.
Minha mãe que era filha, agora se tornou avó e assim por diante. Devo confessar
que meus 15 anos já passaram há, exatamente, 15 anos. Pronto, assumi a posição
que um dia enxerguei pertencer à minha mãe.
Semana passada, as duas filhas das minhas “velhas turcas”
andaram por Paris. Foram as duas com seus pares, comemorarem, os quatro, os
aniversários delas na Europa. Um dia eu chego lá também, por enquanto, comemoro
em casa!
Foi então que a fantástica rede social (essa que mostra
tudo de todos, por onde as pessoas, às vezes, se expõe demais) me mostrou uma
foto de minha mãe e de minha tia, as duas de mãos dadas, apreciando, não as
réplicas, mas os originais de Millet! Estavam elas ali no museu, homenageando,
juntas, e por isso com mais força, suas mães, ao contemplarem aquelas imagens
tão importantes para nossa família.
Postei meu comentário sobre aquela foto, dizendo que ela
era muito especial e que mais pessoas do que elas imaginavam sentiam algo tão
bom por aquelas telas.
Minha tia, embebecida pelo ar, pela arte e pelo afeto,
respondeu algo que preciso reproduzir: “mas em linha direta, nós as duas, de
certa forma estamos representando e lembrando nossas duas velhas (…) e, através
do tempo e do caminho que a vida segue vocês vão assumindo nosso lugar, como de
certo modo assumimos o delas. A saudade é dor pungente, mas a vida é ardente e
deve ser vivida e semeada como os quadros de Millet”.
É isso! A vida é ardente, que verdade! A vida arde! Se não
seguirmos em frente, ela arde, passa e não carrega ninguém junto.
Temos uma saudade “desgraçada” de quem já se foi, mas a
vida é ardente e devemos seguir, assim como nossos pais seguiram, apesar da
falta dos pais deles e dos queridos deles. E assim foi com nossos avós e com
toda a humanidade.
Gosto de encerrar minhas colocações com frases fortes e
verdadeiras, aquelas que vem diretamente do coração. Hoje estou explodindo de
sentimentos, não consigo verbalizá-los. Por isso, deixo para cada um de nós,
buscar dentro de si, o que faz o coração arder, palpitar, funcionar. Os
causadores podem ser pessoas, gostos, cheiros, imagens, sensações, tanto faz.
Nem sempre precisamos externalizar esses motivos ou as imagens desses
sentimentos. Gosto de guardar minha satisfação, às vezes, só para mim, sob pena
de outros não alcançarem e não entenderem o que estou sentindo.

Então, de momento, nada de
frases de efeito ou de fotos cheias de filtro, hoje vou me curtir por dentro.

3 Comments on A vida é ardente

  1. Paulinha
    03/04/2014 at 2:13 pm (4 years ago)

    Mais uma linda declaração de amor…
    O tempo vai passando, as gerações vão mudando, e nós vamos assumindo o lugar dos pais, os pais de avós… eu me pergunto, se vou ser uma mãe como a minha, ou uma vó tão bacana quanto foram as minhas!
    Responsabilidade de peso! Só o tempo dirá! Exemplos temos a seguir… vamos fazer a nossa história.
    =)

    Reply
  2. Rosangela
    03/04/2014 at 9:41 pm (4 years ago)

    Como não deixar escapar algumas lagrimas enquanto lia este post cheio de amor?
    Maria, Maria cada vez mais está deixando o computador de lado e usando o coração para tocar seus leitores,muitos devem ter se enxergado em tuas linhas.

    Reply
  3. Wera Corrêa
    03/04/2014 at 10:27 pm (4 years ago)

    Amei o post, cheio de sentimentos saudosos, mas muito bons. Enquanto a minha mae era viva eu sempre procurei tirar a foto das 3 geracoes: minha mae, eu e a Rita. Hoje nao perco a oportunidade de continuar com as 3 geracoes, mas hoje sou eu, Rita e Bella. Como dizes no texto, uns nao estao mais aqui, mas outros estao chegando. É a vida… e deve ser vivida e curtida em todos seus momentos.

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