Casei não faz muito tempo.
Perdi as constas de quantas vezes eu e minha irmã fomos na casa de nossa
costureira, dentre as milhares de vezes que tivemos de visitá-la, para ajustar
meu vestido aqui, ajustar o vestido dela ali, coisas que só uma noiva e suas
madrinhas entendem os porquês.
Meu vestido ficou lindo. Eu,
que não queria usar nada no cabelo, além de uma flor, e também não queria algo
muito tradicional, casei toda de branco, com um véu que foi até os pés, e um
vestido que me deixou com ares de princesa. Toda vez que experimentava meu
vestido, minha irmã chorava, se emocionava e o que me restava era continuar me
exibindo e curtir o momento junto com ela. Também, pudera, ela estava grávida.
Além de ver sua irmã mais nova casar, estava com todos os sentimentos e emoções
aguçados.
Então houve um dia em que
nós conseguimos nos perder nas ruas do bairro em que mora a Dona Miraci (minha
realizadora de trajes impossíveis de conto de fadas) e ficamos zanzando entre
uma rua e outra, todas arborizadas e residenciais, quando tivemos uma triste
surpresa.
A rua era larga e comprida e
estava vazia, somente nós trafegávamos por ali. Minha irmã freou o carro e
demos com uma cena de cortar o coração: um passarinho (acho que era um João de
Barro) deitadinho no asfalto e seu companheirinho (outro da mesma espécie)
quietinho ao seu lado, olhando e velando seu corpinho.
Não sei se teria o
passarinho caído da árvore, se foi atropelado ou se algum predador o caçou,
mas a verdade é que ele já não estava mais ali e seu companheiro sabia disso
muito bem. Ficamos pensando que deveria ser um casal. Nem lembro muito bem o
comentário instintivo de minha irmã, mas vi que ela iniciou um choro interno, o
mesmo que eu fiz questão de disfarçar.
Há tristezas nessa vida, das
quais não podemos nos furtar, tampouco, evitar que aqueles que amamos sintam.
Saímos dali arrasadas,
torcendo para acharmos a rua e nunca mais passarmos por ali. Mas a verdade
continuou conosco: o passarinho, que ficou, estava passando pelo seu momento de
tristeza e ninguém poderia evitar. Mesmo que eu pegasse o passarinho no colo,
enchesse de carinho e de conforto (além de saber que ele não entenderia essa
atitude do bicho chamado ser humano), não voltaria atrás no tempo, a ponto de
evitar que a causa de seu sofrimento acontecesse.
Assim é a vida, vamos
andando de forma a prevenir desconfortos e tristezas. Alguns são mais zelosos
com seus corações, outros, mais levianos. O fato é que, por mais que se faça
tudo, às vezes é inevitável sofrer. Perder alguém um dia, por exemplo, é
inevitável. E não falo de perder alguém para um outro alguém. Falo de perder
alguém para o incontrolável da vida.
E o mesmo acontece no dia a
dia com os pais que querem evitar todas as tristezas dos filhos; os filhos que
querem evitar todas as tristezas dos pais; o amigo que daria o seu coração para
ver seu amigo parar de chorar; estamos sempre querendo evitar ou arrancar a dor
daqueles de quem gostamos.
Vou mais além, às vezes não
precisamos ter uma relação de afeto pré estabelecida, basta ver uma cena triste
na rua, como a do passarinho, ou de algum estranho e isso nos comove.
A notícia confortante dessa
dura realidade que não canso de constatar, é que sobrevivemos, apesar de tudo.
Depois de uma noite de choro, o sol insiste em nascer todo o santo dia e traz
consigo a energia e a esperança de dias melhores.
Já dizia meu grande amigo
Caio, “vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma
semana, um mês ou dois, quem sabe?
”…
Temos um poder de
regeneração, o qual desconhecemos, mas esse fenômeno nada mais é que a
natureza, a essência de nossas vidas falando mais alto, gritando e se impondo
sobre as tristezas e sobre a dura missão de viver.
Acredito que ninguém veio
nesse barco para sofrer. Podemos estar aqui para uma grande missão ou para
milhares de pequenas ações essenciais para um grande acontecimento. Nesse
passo, o trabalho é árduo e as provações também. Viver dói, crescer dói. Mas é
tão bom… É tão bom descobrirmos que ainda tem muito mais o que se fazer,
muito mais pelo que batalhar. Existe vida após o sofrimento e essa vida vem, no
mínimo, recheada de mais aprendizado.
Se ontem eu chorei, hoje
está na hora de secar as lágrimas e seguir. Quem sabe amanhã já não é tempo de
rir novamente?
Para ti, minha Lucimar, com carinho da tua
Morena.

5 Comments on Dores Inevitáveis

  1. rita
    20/03/2014 at 5:08 pm (4 years ago)

    Ai que lindo.
    Verdade.
    A gente tenta ao máximo evitar as tristezas, eu tento de tudoooo para proteger a minha filha, chego até a neurose de ex-mae-de-prematuro, mas a vida anda, eles crescem, querem bater as asas, subir no escorregador mais alto e perigoso, e dai? Vais fazer o que?

    So entregando nas maos de Deus mesmo.

    Temos que viver e deixar os filhos viverem, a infancia passa tao rapido, a adolescencia, a vida adulto, como andam dizendo agora, a vida é um sopro, entao depois de qualquer coisa ruim, sempre vem uma boa.

    Beijinhos
    Rita

    Reply
  2. Gustavo Corrêa
    20/03/2014 at 5:17 pm (4 years ago)

    Muito bonita a coluna.
    Geralmente as coisas são tão descomplicadas para quem está de fora e tão complicadas para quem vive. Por que será que é assim? Tudo depende da perspectiva da pessoa. De qualquer forma, gosto da ideia de que "o sol sempre nasce na manhã seguinte" e pode nos fazer sorrir.

    Reply
  3. Adriana Moreira
    20/03/2014 at 7:07 pm (4 years ago)

    Oi, Rita!

    Fiquei muito emocionada com a sua partilha e me lembrei de uma música de Pe. Zezinho que diz: "Quando alguém a podou, a roseira chorou, mas depois se vingou: deu mais rosas do que nunca. Ninguém nasceu pra sofrer, mas a dor nos faz crescer."
    É bem isso. Tantas vezes temos que passar por experiências dolorosas, mas, passado o momento da dor, podemos nos regenerar e fortalecer nosso interior, ou renovar nossas esperanças! A vida é realmente este ciclo de altos e baixos. Um dia estamos radiantes, outros, nem tanto. Mas todos esses movimentos são próprios da dinâmica da vida e nos fazem crescer por dentro!

    Um abraço, querida!

    Drica.

    Reply
  4. Rita
    20/03/2014 at 7:14 pm (4 years ago)

    Drica querida!

    O texto está lindo mesmo, mas ele não é de minha autoria. Nao sou eu quem escrevo esta coluna.

    Mas ficou lindo e é como Maria e tu disseram, depois das tristezas a gente se regenera.

    beijocas grandes
    Rita

    Reply

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