Uma vez, não sei bem quando,
nem em que circunstância, um senhorzinho disse: Corte sua própria lenha.
Assim ela aquecerá vocês duas vezes
. Esse mesmo senhor foi quem desenvolveu
uma fórmula de produção baseada em linha de montagem, que reduziu
significativamente o custo de materialização dos produtos de sua indústria,
aumentando seu lucro substancialmente.
Não, eu não entendo nada de fordismos
e de seus desdobramentos na era industrial, tampouco na esfera econômica,
só achei uma forma interessante de apontar a autoria da frase sobre a qual
estou refletindo desde o dia em que a li.
Se eu cortar minha própria
lenha, ela aquecerá meu corpo duas vezes… O mesmo serve se eu arrumar minha
própria cama, lavar minha própria roupa (mesmo que seja na máquina) e limpar
meu próprio banheiro.
Em falar na limpeza do
próprio banheiro, li um texto bastante reflexivo na internet (acesse aqui) que, muito resumidamente, afirma
que a violência social não está necessariamente ligada a pobreza, mas a
desigualdade social. Isso porque no Brasil, por exemplo, as pessoas são pré
julgadas pela aparência, profissão ou status que ocupam, diferentemente
da Holanda em que um porteiro é tratado da mesma forma que um médico:
simplesmente como uma pessoa.
Mas estava eu falando em
cortar minha própria lenha e limpar meu próprio banheiro. A lenha é apenas uma
alusão aos serviços dos quais necessitamos diariamente e delegamos para outras
pessoas, mediante uma contraprestação.
Seguido me questiono se devo
delegar tanto os serviços e ficar tão dependente de pessoas, quando eu mesma
posso dar conta do recado.
Antigamente era mais fácil,
nem todas as mulheres trabalhavam, então sobrava tempo para deixar a casa em
dia, preparar uma boa refeição, cuidar dos filhos. Hoje já se fala em
terceirizar a educação dos filhos também, a escola que se vire, estou
pagando para isso!
Vivo, enfim, em uma tensão
entre falta de tempo para cuidar da minha casa (das minhas coisas) e passar o
dia inteiro fora ralando duro para pagar as contas e/ou ter uma vida boa.
Será que é verdade que
quanto mais temos, mais arranjamos motivos para nos preocuparmos?
Afinal, quando humanamente
possível, que mal há em encarar um “terceiro turno da faxina” em favor de si
próprio?
A casa fica mais limpa
quando faxinada por mim, ao invés de alguém que contratei? Nem sempre, depende
do meu padrão de limpeza e do padrão de limpeza desse alguém colaborador. É
mais fácil delegar? E como… E o custo-benefício? Difícil de dizer, alguns
preferem pagar para não se incomodar, outros preferem se incomodar para não
pagar/gastar.
Afinal, a limpeza de uma
casa merece tanta reflexão? Também não sei, mas penso que “botar a mão na
massa” de vez em quando não faz mal a ninguém e nos faz lembrar que
determinados serviços que só pedem trabalho braçal são tão necessários quanto
aqueles que não dispensam muito estudo ou dedicação intelectual. Sei, ainda,
mais uma coisa: não importa o grau de aprimoramento, onde não houver boa
vontade, nada sai direito.
No mais, sigo minha
indagação tendenciosa a concordar com o senhorzinho dono da Ford. Na
verdade, adoro desfrutar da limpeza e da organização que eu mesma dispensei
para as minhas coisas. Cada um com suas manias.

3 Comments on Faça você mesmo

  1. Gustavo Corrêa
    13/03/2014 at 12:16 pm (3 years ago)

    Concordo em parte. Tem coisas que não tem que terceirizar mesmo, agora depois de um dia de trabalho assumir um compromisso no terceiro turno, quando não é necessário, em detrimento de estar fazendo alguma coisa prazerosa, me parece muito penoso. Agora claro, o critério de prazerosa não é o mesmo para todos. Talvez para alguns, encarar uma faxina não seja tão sofrido, porém eu, particularmente, prefiro ter meu momento de ócio para mim mesmo e terceirizar esta atividade.
    PS: mas é muito legal a frase do Ford.

    Reply
  2. Anonymous
    13/03/2014 at 3:50 pm (3 years ago)

    Ótima reflexão.

    Eu acho que quando cada um faz seus serviços, passa a dar mais valor à algumas coisas que antes passavam despercebidas. Organização por exemplo, a pessoa começa a cuidar durante o dia-a-dia pra não espalhar coisas pela casa que depois terão que ser juntadas antes da faxina. Opta por outro tipo de roupas que dá menos trabalho pra lavar, presta mais atenção na quantidade do produto de limpeza que é gasto em cada vez. Tudo isso são coisas que já ouvi como críticas à pessoas que terceirizavam "fulana gasta muito detergente", como se a coitada tivesse culpa e jogasse pelo ralo. "fulana estraga minha roupa" bom, que tal dar uma orientação à ela? você mesma saberia lavar suas roupas? "fulana guarda minhas coisas nos lugares errados!" ela não precisaria fazer isso se você os tivesse deixado organizados.

    Cada trabalho é importante para que o mundo não pare de girar, sinto que no Brasil a maioria das pessoas não se dá conta disso, e se acha superior baseado em classe social ou profissão. Uma tristeza e prova de soberba e ignorância.

    Quanto a perder tempo de ócio ou prazer pra encarar um terceiro turno de faxina, acho que se tivermos organização é possível fazer um pouco a cada dia e não acumular tudo de uma vez só. Dicas muito boas sobre isso podem ser lidas aqui: http://www.vidaorganizada.com

    Ana.

    Reply
  3. Paulinha
    14/03/2014 at 12:09 am (3 years ago)

    Ah, esse é o meu drama! Pagar pra alguém fazer, ou fazer e 'perder tempo'.
    Na dúvida continuo fazendo eu mesma…
    Além do gasto, me incomoda muito só de pensar de alguém estranho mexendo/limpando as minhas coisas… quiçá quebrando, ou estragando alguma coisa. Pelo menos esses são relatos comuns de quem tem!
    Então vou mantendo, tapeando de vez em qdo… E tento não me estressar com isso qdo não dá tempo, qdo não tô afim, ou qdo tenho uma coisa mais interessante pra fazer!
    =)

    Reply

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