Não gosto de
generalizar as pessoas, tampouco suas vidas, mas quem não assistiu ao filme A Noviça Rebelde, não teve infância.
Ok, estou sendo
muito severa no julgamento do que penso ser uma infância feliz, até porque,
como dizem por aí, a minha felicidade não
é a sua
. Para muitos, a infância feliz está em tardes de verão regadas a
muito futebol com os vizinhos de quadra ou está perfumada com aquele cheirinho
de bolo recém assado, pronto para ser degustado com um copo de leite gelado.
Na verdade, a
infância feliz está dentre um pouco de tudo isso e muito mais, mas eu credito a
ludicidade de minha infância aos filmes que assistia, em especial, a esse, A Noviça Rebelde. 
Uma jovem
sonhadora, feliz simplesmente porque era feliz, que adorava cantar nas
montanhas da Áustria e pretendia seguir a vida religiosa. Tinha uma fé incrível
em seu Deus e tinha, acima de tudo, fé na vida.
Mas aquela noviça
não era apenas uma menina que vivia em um convento, preparando-se para o ofício
que havia escolhido. A verdade deve ser dita: ela tinha tesão pela vida. Esquecia-se dos horários de rezar, pois precisava
sentir o verde da grama, o molhado da água e o gosto da liberdade. Que mal
havia nisso? Onde estava o pecado? Em lugar algum…
Sua sorte, ou
sua sina, foi que a Madre Superior do convento percebeu que a noviça não havia
nascido para ser freira, a despeito de sua fé e de sua vontade de fazer o bem.
Foi assim que enviou a jovem Fräulein Maria para a casa daquele que seria o
grande amor de sua vida, para servir como governanta dos 7 filhos daquele
capitão viúvo e rígido.
E para quem não
conhece essa joia clássica, eu não vou contar mais nada. Para os que conhecem,
suspirem comigo!
Pois bem, estava
eu falando de minha infância feliz graças também a este filme, mas sempre que
penso em Noviça Rebelde, penso em
alguém cuja pessoa ninguém poderia, jamais passar por essa vida sem conhecer.
Ela é a minha
noviça rebelde. Minha infância foi colorida, mas a ela credito os tons mais
vivos das cores que enfeitaram meus dias e ainda enfeitam.
Uma mulher muito
a frente de seu tempo que ousou em um uma época em que as meninas terminavam o
colegial e seguiam, no máximo, a carreira do magistério. Essa mulher se
permitiu amar. Nenhum livro foi suficiente para sua curiosidade, para a sua
voracidade. Saiu de casa, foi para a cidade grande, batalhou, preservou seus
laços, multiplicou seus laços, criou os filhos, foi mulher, foi amante e é, até
hoje, a estrela do seu palco.
Ela sempre foi
tão intensa, que contagia qualquer um que está a sua volta, mas sempre contagia
para o bem. Consegue enxergar o lado bom das pessoas, sem dar muita importância
para aquilo que não é tão bom.
Minha Tia
Terezinha, hoje na casa dos 80, é uma Tia Avó “mais que demais”. Alguém que
misturava pãozinho fresquinho da padaria e brincadeiras com bola no corredor de
seu apartamento, para os três netos de sua prima, a quem ela também chama de seus.
Hoje nossos
momentos são mais profundos, e foram elevados a conversas como: Tia Terezinha, que tal comer menos batata
frita e mais frutas?
Ou, Alô? Oi, Tia
Terezinha! Riquinha… O que estás fazendo, já almoçaram? Que nada, acordei
agora há pouco
(por volta das 4 horas da tarde), vou tomar meu café e ir à missa!

Essa mesma
menina travessa na pele de uma jovem senhora faceira, que gosta de me ouvir descrever
a cor dos olhos, o caráter e o tipo de cabelo do meu marido; quer saber se
minha irmã está feliz; se meu irmão continua cada vez mais lindo e riquinho e entende que qualquer momento
é momento para amar com todo o coração.
Preocupada se
minhas costas estão bem protegidas, aconselha-me a viver intensamente, não
deixando nem um pingo de vida para depois.
Ela é, sem
dúvida alguma, a noviça rebelde da minha vida e, se ela não existisse, talvez a
própria Noviça Rebelde não tivesse
tanta graça como tem para mim. Tia Terezinha traz a música das montanhas direto
para o meu coração e é por isso que digo que ninguém poderia passar nessa vida
sem ter o prazer de alguns minutinhos com ela. Um abraço, dois ou três bem
apertadinhos e serelepes, cheio de carinho e ternura.
Minha noviça
rebelde, a vida era muito mais fácil quando moravas a alguns metros da minha
escola de dança e passávamos tardes inesquecíveis de histórias, dengos e
afagos.
Hoje, em outro
estado, encontrar-te já não é tão corriqueiro, mas te carrego sempre comigo no
meu coração, sabendo que tu carregas a todos nós no teu. Ainda assim, o
telefone é um aliado querido, em que podemos, uma, ouvir a voz da outra.
E que nunca se
acabem os sons que vêm das montanhas.

2 Comments on A Noviça Rebelde da Minha Vida

  1. Wera Corrêa
    20/02/2014 at 12:04 pm (4 years ago)

    Que linda homenagem. Eu sempre digo que as demonstracoes de amor e de carinho nao devem ser postergadas. Devem ser ditas e demonstradas toda vez que se tem oportunidade. Quanto a esse filme ja assisti dezenas de vezes com a Bella. Muito lindo e nao me canso se assisti-lo.

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