Preciso “chorar meu pranto”.
Semana passada, dia 07 de fevereiro de 2014, tive um início
de manhã muito triste. Estava saindo para o trabalho quando recebi uma mensagem
sentida do meu marido, que dizia: “faleceu o Nico Nicolaiewsky. Que triste…”
Naquele momento, senti como se estivesse perdendo algo muito
precioso de mim mesma, não sei dizer exatamente o quê, mas sei que me assustou.
Nico foi um grande músico, um grande ator, mas especialmente,
um grande artista – alguém que se dedicou a arte, que produziu arte -.  Penso que, com estudo e dedicação, qualquer
pessoa pode ser um bom médico ou um bom pianista, bastando aprender a técnica.
Já para ser artista, não basta, sequer, uma vida inteira de estudos. A arte é
coisa dos deuses, é dom que nasce junto com aquele ser iluminado, especialmente
escolhido e esculpido para transmitir a arte. Nico Nicolaiewsky fez muita arte
neste plano e é por isso que me doeu tanto a notícia triste daquela manhã.
O espetáculo Tangos e Tragédias estava em cartaz há 30 anos.
Podem imaginar que glória para um artista é ter sua obra em cartaz, no Brasil,
durante tantos anos? E eu que estou nessa vida também há 30 anos, medíocre e
comodista fui prestigiar o espetáculo apenas uma vez…
Aí está minha tristeza. Minha presença na plateia do Maestro
Pletskaya o do Violinista Kraunus Sang aconteceu ainda na década de 90 e desde
lá, todo o final de ano eu dizia para mim mesma: esse ano vou novamente
assistir. Contudo, cada ano vinha com uma desculpa: deixei para comprar os
ingressos muito tarde e já estavam esgotados; estou com pouco dinheiro, então
vou dar uma economizada; esse final de semana vou viajar, no outro tem
aniversário do fulano e… Nossa, como passou rápido, já acabou a temporada de
verão?
E assim foi, que no finalzinho de dezembro de 2013 eu e meu
marido combinamos: esse ano nós vamos! Mas para minha tristeza, logo que entrou
janeiro, o espetáculo havia sido cancelado por motivos de saúde. E assim vieram
as notícias da hospitalização de Nico 
Nicolaiewsky e a cada momento em que eu pensava no espetáculo, começava
a sentir um prelúdio da notícia mais triste de todas: não há mais Tangos e
Tragédias
.
Não vou nem comentar a perda da esposa, da filha e do amigo,
quem sou eu para falar a respeito de sentimentos tão particulares? Mas fico
pensando que não somente nós perdemos um grande artista, como também seu
parceiro Hique perdeu seu companheiro de um trabalho tão sólido e tão, como vou
dizer? Tão querido! Um trabalho tão querido…
Caiu em mim como um tijolo, algo que não costumo afirmar para
mim mesma com muita frequência: as pessoas não são eternas e nada é para
sempre.
Fui comodista, porque pensava que sempre poderia deixar para
a próxima temporada, afinal, o teatro estava ali e eles estavam ali todos os
anos. Fui medíocre porque poderia ter aceitado sentar nas galerias, abrir mão
de um conforto momentâneo para alimentar minha alma com algo muito mais
nutritivo que um requintado jantar.
E tantos sentimentos juntos e misturados fazem eu sentir que
um pedacinho da minha juventude se foi junto com esse grande artista. Foi
maculada minha juventude inocente que pensa: pode ser amanhã, ao invés de
ser hoje
. Amanhã talvez seja tarde demais. E no meu caso, foi.
O dia 07 passado foi um dia sem música para mim. Não estava a
fim
, nenhuma música estava agradando. Meu luto foi desligar o rádio. Fiquei
com uma sensação estranha de solidão e abandono, pois percebi que muitas vezes,
eu mesma me abandonei. Abandonei minha necessidade de cultura, meu prazer de
prestigiar um artista e de alimentar minha alma.
Dizem que a melhor forma de homenagear as pessoas que já se
foram, é vivendo da melhor forma possível; rindo, ao invés de chorar; festejando.
Quero acreditar que, todos aqueles que nos fazem falta, podem ouvir nosso riso
e com ele se alegrar também; ouvir nossa música e conosco dançar.
Como a vida é um eterno aprendizado e hoje eu já sou um
pouquinho mais madura do que era até o dia 07, quero conseguir parar de esperar
e partir para o gol. Remeto-me ao que disse aqui, um dia antes dessa perda, e
repito: “Vou ali ser feliz e não volto”.

4 Comments on Um dia sem música

  1. Wera Corrêa
    13/02/2014 at 10:46 am (4 years ago)

    Lindo o post. Me remete novamente a reflexao, e uma linda homenagem ao Nico. Tangos e Tragedias marcou todos que assistiram a esse espetáculo. Eu assisti 5 vezes, mas tem gente que assistiu + de 20 vezes. Sabiam cantar, absolutamente, todas as musicas. Tenho uma amiga que mora em Macau ha, aproximadamente, 10 anos e chorou copiosamente quando leu a triste noticia.
    Teu post me faz refletir como devemos ser, ou procurar, ser feliz a cada dia. Nunca deixar para amanha, inventando desculpas para isso. Eu, seguidamente, olho para minha vida e vejo que só tenho motivos para ser feliz, mas me surpreendo, muitas vezes, com pensamentos estranhos. Felizmente eles sao passageiros. Tem uma frase do Caio Fernando Abreu que diz: "To me afastando de tudo que me atrasa, me engana, me segura e me retem. Fui ser feliz e nao volto. "

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  2. Gustavo Correa
    13/02/2014 at 11:50 am (4 years ago)

    É, a perda foi grande.
    Este pose casa bem com tua coluna da semana passada… a ideia de aproveitar, fazer as coisas, não inventar desculpas ou postergar pequenas ou grandes felicidades… talvez seja a idade avançando, mas a maior verdade de todas é que a vida vai passando e não tem sentido esperar para ser feliz e fazer as coisas que gosta.

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  3. Paulinha
    13/02/2014 at 2:43 pm (4 years ago)

    Exatamente como me senti… passei todo o final de semana remoendo isso.
    Tipo, não acreditando. Como pode ter sido tão rápido? Tão cruel? Tão assim de repente…… não adianta, por mais explicação que se tenha, já foi…
    Fico feliz por ter visto duas vezes uma em 2008 ou 9 e a outra em 2011.
    Esse ano decidimos que iríamos novamente! Comprei ingressos para o dia 24 de janeiro, véspera do meu aniver, seria o início das comemorações… mas antes mesmo já haviam cancelado, veio a notícia da doença, do início do tratamento e dia 7 o triste fim.
    Porto Alegre será um pouco mais triste em janeiro/fevereiro, sem a temporada dos Tangos.

    O jeitinho brasileiro de deixar tudo pra depois, pra última hora… acaba nisso: não deu tempo!
    Mas, como pessoas bem resolvidas, vamos aprendendo e mudando isso!

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  4. rita
    13/02/2014 at 5:52 pm (4 years ago)

    Eu tambem fiquei ARRASADA, parecia que tinha sido um familiar, amigo meu, de tao triste que fiquei. Chorei varias vezes ao dia lendo as homenagens a ele, ouvindo suas musicas. Ele foi parte da historia de Porto Alegre, parte da nossa historia, foi como se um amigo tivesse se despedido.

    Triste demais.
    E fica sempre a licao velha aquela, nao deixe para amanha o que pode fazer hoje. A gente demora a aprender, confia no dia de amanha, e as vezes a vida se apresenta com outros planos.

    Beijos
    Rita

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