“Apronto agora os meus pés
na estrada. Ponho-me a caminhar sob sol e vento, eles secam as lágrimas. Vou
ali ser feliz e não volto”.
Claro que não sou eu, mera
mortal, a autora dessa frase. Foi meu ídolo Caio Fernando Abreu, quem disse isso.
“Vou ser feliz e não volto”.
Quantos de nós fizemos isso? Poucos. Julgamos ainda não estar na hora. Ainda
não pudemos nos permitir ir ser felizes, pois ainda falta alguma coisinha: falta
emagrecer alguns quilos; falta encontrar o grande amor; falta encaminhar bem os
filhos; falta alívio financeiro; falta conseguir aquela colocação na empresa; falta
trocar de carro; mas depois que eu fizer a minha lipo na cintura, ah… Vou ser
muito feliz. Depois que eu me aposentar, vou ser outra pessoa!
Tudo papo furado. O que
falta mesmo, é coragem, auto permissão e consciência. Consciência de que a vida
passa e de que ela não faz tantas paradas quantas achamos necessário fazer
para, só então, sermos felizes.
Tenho presenciado muitos
boicotes contra a felicidade. Vejo pessoas à minha volta programando sua tão
sonhada felicidade para o mês que vem, ou quando essa onda de estresse passar.
Eu mesma, muitas vezes, já
boicotei minha felicidade. Havia uma época em minha vida, que acreditava que só
poderia viver minha vida em sua plenitude, depois que me colocasse (muito bem
colocada) no mercado de trabalho. E a coisa não foi fácil para mim: penei
durante uns bons 3 anos depois de formada, até conseguir um trabalho que me pagasse
bem. Estava idealizando o melhor cenário, o melhor salário, o melhor cargo, mas
eu nunca conseguía alcançá-los. Enquanto não conseguia, não me permitia ser
feliz. Não me permitia ter momentos de lazer sem pensar que, naquele momento,
poderia estar batalhando para conseguir meu tão sonhado trabalho.
Outras opções me eram
oferecidas, mas eu não tinha coragem para largar mão daquele “sonho ideal” e me
agarrar na realidade que a vida estava me oportunizando. Segui, por muito tempo,
esperando meu momento de ser feliz, até que um dia, vi que o tempo havia
passado e que eu havia deixado passar ocasiões, sentimentos e pessoas
importantes. Foi então que criei coragem: aceitei que não conseguia ser
“gerente” e me tornei “vendedora”. Pensei: melhor menos, do que nada.
Ainda sem muita certeza se
havia tomado a decisão certa, fui aos pouquinhos, sentindo o gosto da liberdade
de mim mesma. Liberdade das amarras às quais eu mesma me prendera. E quando vi,
estava feliz. Estava mais leve, pois fui ser feliz. Novos amigos surgiram, quilos
excessivos se foram e meu grande amor veio de brinde. Entendi que não poderia
mais esperar, pois corria o risco de passar a vida toda esperando. Estava
boicotando minha própria felicidade.
Em menos de 6 meses após essa
“virada”, tornei-me “a gerente”! Eu que já estava sendo feliz, me permitindo
viver momentos bobos, mas felizes, agora havia alcançado meu sonho
profissional, sem o qual eu julgava jamais poder ser feliz. Foi só eu ter
relaxado um pouquinho e aconteceu! Hoje tenho um trabalho não exatamente igual
àquele antes idealizado, mas me faz muito feliz e paga minhas contas. No mais,
não é no trabalho que me realizo, é na vida que posso levar fora dele, e não
estou falando de poder aquisitivo, mas de poder chegar em casa e pensar: não vou
fazer nada. Não tenho terceiro turno. Vou tomar uma cervejinha por aí ou ver a
novela, tanto faz. Ah, que nada! Vou encontrar meus amigos ou ler um livro
gostoso. Não importa o que decida fazer, decidi ser feliz.
A vida é aquilo que acontece
com vocês, enquanto você está ocupado fazendo outros planos. Claro que não saiu da minha cabeça esse pensamento, minha gente. Quem disse essa grande verdade foi
John Lennon. Não saiu da minha cabeça, mas entrou no meu coração.
Assim, procuro em um
exercício diário permitir a mim mesma ser feliz. Ter coragem para descartar o
que já não me serve e consciência que os minutos estão passando e não voltam
mais.
Mesmo com a corrida das
horas, sei que ainda há tempo. Aquela história do copo meio cheio, meio vazio,
é verdade. Não importa se temos 6 meses, 1 ano, 10, 20 ou 100 anos de vida pela
frente. Não importa se já se passaram 80 anos, sempre é tempo de escolhermos
ser felizes. No mesmo passo, mesmo que não seja possível voltar atrás e reparar
erros que corroem nossa felicidade, há tempo para tentarmos acertar em outras
coisas e, assim, minimizar ou resgatar falhas do passado.
Enfim, aqui está meu
protesto contra o boicote à felicidade. Chega de esperar! A vida não é
estanque, sempre teremos problemas ou situações complicadíssimas. Sai um problema, entra
outro. Vamos aparando as arestas, como diz meu pai.
Comecei com Caio, vou
terminar com Caio. E por favor, vamos ser felizes!
“Vou ser feliz, sem me
importar com o que isso irá causar aos outros… o importante é que não estou fazendo
mal a ninguém, pelo contrário! Estou apenas enterrando as impurezas e toxinas
da minha vida e deixando brotar uma bela e frutífera árvore, e que seja doce”.

5 Comments on O boicote à felicidade

  1. Gustavo Corrêa
    06/02/2014 at 11:11 am (4 years ago)

    Muito bom!
    E como é fácil sempre postergar a felicidade. Não tem risco… a "culpa" é sempre de algo que está por vir e não da pessoa que não fez por onde.

    Reply
  2. Paulinha
    06/02/2014 at 1:22 pm (4 years ago)

    Tem um amigo meu que sempre diz: "é barato ser feliz!"
    Estar com amigos/família, comendo uma boa comida, uma bebida bem gelada (nesses dias de calor, uma cerveja é SEMPRE uma ótima pedida)… pra ele essa é a felicidade plena! Hehehe…
    Como tu disse no texto, as pessoas nunca estão satisfeitas…
    Dificilmente alguém passa um dia sem reclamar, esse é um ótimo exercício!
    Enfim… "vamos nos permitir… o tempo voa". É clichê, mas é isso… vamos ser FELIZ!

    Reply
  3. rita
    06/02/2014 at 5:34 pm (4 years ago)

    Verdade, verdade.
    A gente se dá metas, fica tentando, esperando, e os dias vao passando. Parece aquela eterna espera pelo final de semana: ao inves de aproveitar 5 dias da semana, suportamos os 5 para ser feliz no sabado e domingo.

    faz sentido?

    É um eterno exercicio de aprendizado.

    beijinhos
    Rita

    Reply
  4. Alyne Afonso
    07/02/2014 at 1:13 am (4 years ago)

    Adorei! Há um tempo li um texto com o titulo "Felicidade: só no passado ou no futuro" Que me fez refletir bastante. Não aceitei essa "verdade" e…fui ser feliz!
    Bjs!

    Reply
  5. Marcia Farias
    07/02/2014 at 3:51 pm (4 years ago)

    Perfeito…sempre digo para meus alunos ( imagina ser professora pública no RS hehe) que sou louca mas muito feliz!!! Os outros? Deixem eles pensarem o que quiserem….

    Reply

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Comment *