Tenho uma confissão a fazer: adoro novela. Sempre que começa
uma “novela das nove” eu digo por aí que não vou assistir, mas chega um momento
em que me rendo e acabo acompanhando até o último capítulo.
Não foi diferente agora com “Amor a Vida”. Assisto sempre
que posso.
Acho um tédio aquela coitadice da Paloma Sofrenilda
(fica com o Bruno, não fica com Bruno, perdeu a filha, encontrou a filha);
também não tenho muita paciência para aquele Núcleo Bacanal que troca de
namorado como quem troca de calcinha (a advogada nota mil que ganha todas as
causas x a moderna e descolada Patrícia que domina qualquer macho – trocam
entre si os dois bonitões, convenhamos, merecem rodízio…).
Na verdade, o que prende a minha atenção é a parte cômica da
novela: a periguete Valdirene e o Félix malvado tentando se tornar uma
boa pessoa. Pronto, é por eles e pela Elizabeth Savalla, que me sento no sofá e
me grudo na televisão ao invés de ler um bom livro.
Mas ontem o que me tocou foi um diálogo entre a mãe da menina
autista e a avó. Aquela mãe estava tão sofrida por ver sua filha mais ausente e
mais distante do que o usual, já que fora proibida de receber as visitas do
advogado do bem, o Rafael. Ela chorava ao ver que de nada estava valendo
todo o seu esforço em dar conforto, carinho e proteção àquela filha com
necessidades especiais, pois a menina, agora, só voltava ao mundo, se fosse
pela presença do amigo/namorado.
Confesso que também acho meio chato esse núcleo da novela
(nem sempre é possível aos autores abordarem de forma interessante todos os
temas que desejam), contudo, pude ver nas colocações daquela mãe um sentimento
que muitas vezes deve acontecer quando filhos criam asas.
Ela tirou a menina do colégio para protegê-la. Quis evitar um
beijo entre a menina e o tal advogado do bem para protegê-la. Tudo o que
aquela mãe fez, foi para protegê-la. Quem precisa de mais alguma coisa nessa
vida se tem uma mãe que proteja?
Pois bem, todo o amor do mundo (e a proteção) não foram
suficientes para aquela menina, mesmo que portadora de necessidades especiais.
Já não cantaram que “depois que cresce, o
filho cria asas e quer voar”? Esta é a mais pura verdade. Chega um momento
na vida do ser humano, em que ele deixa de ser apenas o filho e não precisa,
exclusivamente, do amor e da proteção dos pais. Ele quer alçar voo. Se não quer,
precisa.
É nesse mesmo momento que alguns pais, não todos, entendem
que já não são capazes de proteger o filho de tudo que a vida pode trazer.
Quando pequenos, os pais protegem do frio, da fome, do tombo, do machucado, das
doenças, da solidão, de outras crianças, de estranhos, enfim, os pais são
absolutos. Mas depois que o filho cresce, quer ganhar a vida, já não cabe mais
no útero materno, nem debaixo da asa daquela galinha d’angola que anda com os
seus e com outros pintinhos por aí.
Achei linda a cena de quando a mãe da menina desaba a cabeça
no colo daquela avó, também mãe, e chora… Extravasa aquela sensação de dor
sem fim, quando percebe que não é suficiente para sua filha.
E a contrapartida da avó me pareceu tão verdadeira. Ela
disse, mais ou menos, o seguinte: quando os filhos voam, nós, mães,
aceitamos; às vezes eles quebram a asa e voltam para a casa. Nesse momento nós
vamos usar de todo o nosso amor para consertar a asa, mas quando se sentirem
prontos, vão voar novamente
.
Que verdade. Já havia referido outras vezes: feliz daquela
mãe que deseja asas para seu filho, mas tem certeza de suas raízes.
Imagino que a dor da “perda” seja tenebrosa, mas é
necessária. A dor do parto é a primeira de uma das piores dores, acredito. Ali,
mãe e filho têm a primeira pista de que a vida não é nada fácil e que um dia o
filho terá de voar. Nem sempre o filho quer, tampouco a mãe (os pais), mas é
necessário, senão, no caso do parto, os dois sucumbem.
Ainda não sou mãe, então, é fácil falar, mas sou uma filha
bem filhotinha. Sou um bezerro mamão que um dia percebeu que estava na
hora de voar. Não foi fácil. Ainda não é, mas alenta meu coração saber que meus
pais estão a postos para consertar minha asinha, se precisar. E constatar que
consigo voar, dar rasantes e piruetas? Ah… Não tem mastercard que pague.
Ontem, enquanto assistia a tal cena da novela, sabia que
escreveria sobre este assunto, mas não tinha ideia de como encerraria minhas
palavras.
Agora, depois de refletir, olhar para trás, para os lados e
para o espelho, só posso finalizar de uma forma: fazendo um salve, o maior de
todos, para a mãe que tem a barra mais longa de uma saia e para um pai que
prefere sempre “pecar” pelo excesso.
Vamos levando e aprendendo: um dia mais filhos, outro dia
mais donos de si. Nós todos estamos aprendendo.
Rosa e Fernando, com todo o meu amor, Maria, Maria.
Para conhecer a Maria, Maria clique aqui.

5 Comments on Filhos e Pássaros ou Filhotes de Pássaros

  1. Wera Corrêa
    23/01/2014 at 12:52 pm (4 years ago)

    Maria, Maria adorei seu post. Eu assisto Joia Rara e Viver a vida. Dessa ultima gosto somente do Felix, Nico e Marcia os demais núcleos nao tenho paciencia para assistir e saio da frente da TV. O dialogo a que te referiste, entre mae e avo, me tocou muito. Achei lindo e me fez recordar de um livro, que lamentavelmente nao recordo o nome, me foi indicado na época, dolorosa para mim, em que a Rita decidiu morar no Canadá. Contava a história de uma aguia que foi criada num galinheiro e quando adulta, foi solta e nao sabia voar. A lenta aprendizagem do voo e o maravilhamento dela ao conseguir alcar voo pela 1a.vez. Assim deve ter se sentido a Rita quando foi em busca do seu destino e a mim coube aceitar a decisao e ficar na torcida para que tudo desse certo. Hoje vejo que os filhos crescem e seguem seus sonhos e aos pais cabe dar a certeza de que sempre estarao prontos para apoiá-los e torcer por eles. Parabéns por abordar esse assunto.

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  2. Paulinha
    23/01/2014 at 1:10 pm (4 years ago)

    Eu não sou muito noveleira, mas vai chegando no fim, vai dando uma curiosidaaaade… hehehe…

    Ter a proteção e entendimento dos pais é algo maravilhoso… eu tb tenho esse sentimento, eu sei se eu precisar eles vão estar ali pra me acolher, e não vou ter problemas de morar com eles novamente… sei q não seria como antigamente, mas a convivência seria, digamos, pacífica.
    =)

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  3. Rosangela Tolotti
    23/01/2014 at 5:45 pm (4 years ago)

    Lindo texto, Maria,Maria.
    A mim também tocou profundamente a parte de consertar azinhas quebradas… mães e pais em geral são muito hábeis neste setor.
    Sabes que lendo teu texto percebi que ao longo da vida as mães passam por vários "vários" partos com o mesmo filho…
    Criar filhos é um desafio que se renova infinitamente e aos poucos entendemos que nosso poder absoluto não é suficiente para garantir todas as necessidades e principalmente a felicidade das nossas crianças com suas asas inquietas. E assim crescemos todos, não é mesmo?

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  4. rita
    23/01/2014 at 7:39 pm (4 years ago)

    Ai que lindo.
    Amei.
    Novela é cultura….um pouco da nossa cultura do Brasil, nos enxergamos ali, seja no nucleo dramatico (seria o meu), ou no nucleo comedia (seria o da bella) e por ai vai. Implico com quem "nao suporta" novela, talvez por que se enxerguem ali, nao sei.
    Voltando, verdade, maes sao assim, a gente da asas e morre de medo depois, mas faz parte.
    Beijinhos
    Rita

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  5. Anonymous
    23/01/2014 at 9:09 pm (4 years ago)

    …"eu bem queria continuar ali, mas o destino quis me contrariar"…

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