Alguns dizem que chocolate não é doce, ou melhor, não é um
tipo de doce. Há quem defina o chocolate como uma matéria à parte dentre os
ingredientes culinários, servindo tanto para o preparo de doces, como também de
pratos salgados, bebidas ou, mesmo, para ser degustado como o ator principal.
Uma menina que me é muito querida, ainda ontem, declarou que
poderia viver sem várias coisas, menos sem chocolate. Sua tara é forte,
todos os dias sente necessidade de comer um pedacinho e talvez precise ter
muito autocontrole para não traçar uma barra inteira sozinha. Sorte dela que
tem um corpinho esbelto e uma taxa de glicose saudável.
Muitos estudos dizem que o chocolate, na medida certa (e
desde que seja com o maior percentual de cacau possível) faz bem para o
coração, é antioxidante. Pois foi nesta verdade que me “grudei” e faço dela meu
lema de vida. Não gosto de ter de me privar do chocolate, portanto, chocolate,
no meu universo, faz bem para o coração e para a alma.
Cresci no meio de muito chocolate: bombons de todas as
espécies, feitos pelas mãos de uma simpática e elegante senhora que me ensinou
a cozinhar, a gostar de comer e a gostar de fazer as duas coisas juntas (adoro
provar o que faço na cozinha).
Minha vó transformava uma barra de chocolate em arte. Como se
fosse da matéria bruta para o cristal. Com certeza era um dom.
Desde muito cedo fui para a cozinha com ela e, sem nem
perceber, ainda criança já sabia fazer um dos bombons mais gostosos que já comi
nessa vida. Era feito um mousse de chocolate por dentro, coberto com chocolate
puro por fora.
Dona Sara produzia seus bombons para presentear pessoas
queridas, para prover nossa casa com gostosuras, para fazer uma renda extra e
para ensinar qualquer pessoa que se dispusesse a aprender.  Fazia isso de forma amorosa e majestosa.
Jamais vou esquecer daquelas mãos (que eram lindas e macias), mexendo o
chocolate que se derretia pouco a pouco em banho maria. Acho que um dos
maiores elogios que recebi, foi quando alguém disse que minhas mãos eram iguais
as dela.
Eu, muito pequena, assistia de longe as aulas que ela dava
para as “alunas oficiais”, digamos assim, e tratava de lamber todas as colheres
lambuzadas com aquele festival de chocolate que circulava pela cozinha.
E assim fui me tornando uma pessoa insuportavelmente exigente
por uma comida boa e bem preparada. Não faço questão de luxos gastronômicos
(embora os aprecie), mas se vou comer fora, que seja muito bem feito, do
contrário, como em casa, onde tenho minhas panelas, meus temperos e meus
ingredientes, próprios de uma bruxa do bem.
Neste mesmo caminho, a neta da Dona Sara se recusa a comer
algo que tem cor de chocolate, cheiro parecido com chocolate e textura que
lembra chocolate. Minha vó soube me ensinar a ser chata. Fazer o que? Adoro ser
assim. Chocolate, só se for de verdade: abaixo à gordura hidrogenada!
Sei que fui uma boa aluna, mas, definitivamente, jamais
cozinharei como minha vó, nem tampouco saberei manusear o chocolate com tanto
talento. Sou como a Tita, personagem do livro Como Água para Chocolate:
ela transmitia seus sentimentos para o prato que cozinhava; se estava triste,
quem provava sua comida, chorava, se estava alegre, degustar seus pratos
causava euforia.
Guardadas as proporções, também transmito meus sentimentos
para a comida. Já aprendi que quando estou triste, melhor não cozinhar, pois
sei que a comida ficará sem gosto, às vezes até queimada, por mais que siga à
risca, a receita. Ao contrário, quando estou feliz, quando o motivo é para
comemorar, meus pratos saem deliciosos e cheirosos, não há quem resista (e não,
eu não sou modesta)!
Tive a sorte de viver 26 anos da minha vida com essa vó que
era uma delícia e sempre que começo a preparar um molho branco ou um belo de um
ganache, converso em silêncio com ela. Só nós duas podemos ouvir nossa
conversa. Vou mexendo o leite com a maisena e a manteiga ou o chocolate meio
amargo com o creme de leite, sempre para o mesmo lado e em fogo brando.
Enquanto faço isso, vou perguntando “e aí, vó, vamos dar o ponto?”, “será que
já está pronto?”… E quando vejo, tenho um lindo bechamél para regar um
filé ou uma massa. Ou então, tenho uma densa, macia e brilhosa mistura de
chocolate para comer com morangos ou cobrir o bolo de chocolate que vou fazer
hoje de noite, quando voltar do trabalho.

Detalhe, a receita do bolo de chocolate não é da minha vó,
mas da filha dela que aprendeu tanto ou mais que a neta da Dona Sara.
Fonte da imagem: clique aqui.
Para conhecer a Maria, Maria clique aqui.

4 Comments on A sensação do chocolate

  1. Gustavo Corrêa
    16/01/2014 at 11:49 am (4 years ago)

    Pois é, chocolate tem seu valor, mas o mais bacana é a história que tem por trás. Lembranças que não se apagam e que são lembradas com um bom chocolate, nada melhor.

    Reply
  2. Paulinha
    16/01/2014 at 3:22 pm (4 years ago)

    Que linda declaração de amor!
    Acho que isso é o melhor de quem já nos deixou… as lembranças, ensinamentos, histórias…
    Eu sempre fiquei impressionada com a facilidade/habilidade/destreza da minha vó na cozinha. Tudo que ela fazia ficava delicioso! Desde arroz, feijão e bife até um prato mais incrementado.
    Saudades das vózinhas(os)…
    Tenho muito orgulho de tb ter seguido os mesmos passos culinários… avós, pais e agora eu!
    Como eu já comentei em alguns outros posts aqui da Rita: exemplo é tudo!
    =)
    Ah sim, e o chocolate… sempre uma boa pedida, pena aqui no Brasil eles não serem tão 'chocolates' assim!

    Beijos!

    Reply
  3. Wera Corrêa
    16/01/2014 at 6:00 pm (4 years ago)

    Teu post me fez lembrar de dois filmes maravilhosos.
    Como Água para Chocolate, que mencionaste no post e outro que faz parte dos meus filmes preferidos Festa de Babete. Imperdível. Quem resiste a um chocolate e a uma boa mesa. Agora, com licenca, vou me deliciar com meu chocolate, quem resiste depois desse post.

    Reply
  4. rita
    16/01/2014 at 8:21 pm (4 years ago)

    Amei!

    Ah não…..queremos foto e passo a passo da receita de familia…do bolo de chocolate…PLEASEEEEEE

    Beijo, Beijo
    Rita

    Reply

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