Desejar
merda para alguém é auspicioso, é dar boa sorte, bonne
chance!
É
dizer para um artista: vai
lá e arrasa
!
Isto porque, na França, segundo a lenda, ainda nos tempos das
carruagens, quando um espetáculo estava bem cotado, o público fazia
filas e filas em frente ao teatro para não perder a chance de
assistir. Assim, não só defronte, mas também nas ruas que levavam
ao teatro, havia muita (como vou dizer isso?) merda! Isso mesmo, cocô
de cavalo, dejetos, necessidades orgânicas do bicho, enfim, falei.
Diante daquela realidade, os artistas sabiam que o espetáculo seria
(ou já estava sendo) um sucesso, afinal, muitas pessoas estavam lá
para assistir.
E assim foi que, até os dias de hoje, as pessoas do meio artístico
se desejam merda antes de começarem um espetáculo.
É muito bom, quando estou com aquele frio na barriga, minutos antes
de subir no palco (palco = lugar mágico que me transforma
em estrela
), sentir a mão quente de alguém apertar a minha que
está gelada e, como se fosse um sussurro vindo das coxias, ouvir um
merda! Ufa… Sinto que estou pronta para encarar a escuridão
da plateia e a luz que ofusca meus olhos.
Já contei que sou bailarina? Pois é, danço desde os 6 anos.
Profissional? Não. Amadora? Também não. Amante? Sim, com orgulho.
Sou amante do ballet clássico e é com ele que alimento minha
alma. Tive uma relação complicada com essa arte que não permite pé
feio, pouca elasticidade e corpo volumoso: tudo que me pertence. Meu
pé é forte, mas não é bonito para uma bailarina; minha perna
passa dos 90°, mas não vai até onde meu cérebro manda e meu corpo
está muito mais para dançarina do tchan, do que para
bailarina do Bolshoi.
Por muitos anos investi minha vida no ballet, o resto, era
resto. Estudos, festas, amigos: tudo secundário. Minha frase
favorita era: não posso, tenho ensaio. Recebi apoio
incondicional dos meus pais, que achavam que eu era a bailarina mais
talentosa da história.
Certo dia me caiu a ficha e percebi que jamais poderia viver da
dança, pois não tinha as aptidões físicas necessárias para me
destacar entre tantas bailarinas com a mesma técnica que a minha.
Sofri muito (por anos). Revoltada, quis esquecer o ballet e
não pensei, sequer, em praticar outra dança. Virei a página, assim
como se faz quando queremos esquecer um romance que já não tem mais
como dar certo. Guardei em uma caixa todas as referências àqueles
tempos e passei adiante muitas lembranças.
E foi isto que o ballet representou na minha vida por uns bons
10 anos: um amor não correspondido. Ele desprezou todo o meu afeto,
toda a minha dedicação, toda a minha disponibilidade.
Do tombo, bati a poeira e dei a volta por cima. Segui minha vida,
entrei na faculdade, mudei os hábitos, mas no meio do caminho, meus
pés estavam sempre ensaiando passos velados por de baixo da mesa. Em
uma sala de aula em que todos estavam vidrados no professor, eu me
esforçava para assimilar a matéria, mas sempre com o coração em
outro lugar.
Então, comecei a abrir meus horizontes, com a ajuda de pessoas
queridas que conheciam esse meu gosto “irretratável” por dançar
e, aos poucos, fui voltando a praticar.
Os anos foram passando e, ao mesmo tempo em que eu me formava,
namorava, enfim, vivia minha vida, dançava sempre que possível. E,
abrindo meu coração para novos amores (outras modalidades de
dança), acabei sendo fisgada por ele novamente.
Voltei com o ballet. Ele não me mandou nem um buquê de
flores, nem um pedido de desculpas, mas eu perdoei mesmo assim. A
verdade, é que não gostava de viver sem ele.
Hoje sem pretensões profissionais, mas com o simples intuito de
fazer algo que gosto, uso o ballet para extravasar e expressar
meus sentimentos. Alguns não entendem como conseguimos encontrar
prazer em algo que danifica os pés e os joelhos, exige uma dedicação
especialíssima e, ainda por cima, nos deixa de lado na hora da
escolha da Prima Ballerina.
Talvez eu não saiba explicar a sensação, mas consigo entender que
qualquer sacrifício é recompensado quando ouço uma música e sou
capaz de fazer meu corpo traduzir cada nota musical.
E
qual seria o objetivo fim de toda a bailarina? O palco. É lá que
exibimos o que temos de melhor, aquilo que temos para dar, queira o
mundo assistir, ou não. Estou longe de ser uma exímia bailarina.
Jamais chegarei à perfeição – algo imprescindível ao ballet
clássico
– mas tenho absoluta certeza de uma coisa: sou a primeira bailarina
da vida de algumas pessoas e, acima de tudo, da minha, pois danço
para mim e com todo o meu coração.

6 Comments on Boa sorte, digo, merda!

  1. rita
    05/12/2013 at 5:40 pm (4 years ago)

    Ai que legal, eu nunca fui bailarina, mas admiro muito a disciplina e a vocacao de quem se dedica tanto a esta arte.

    BeijosRita

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  2. Ana
    05/12/2013 at 5:57 pm (4 years ago)

    Amei, muita coincidência que hoje mesmo escrevi sobre minha breve despedida do palco, também meu amigo em (20!) anos de ballet. Fui quase bailarina profissional, mas meu corpo também não é desenhado pra ele (escoliose, joelho que não estica, pouca rotação do quadril) mas aprendi a esconder esses defeitos e leigos não acreditam que "não tenho corpo pra ballet". Entendo perfeitamente tudo que escreveste 🙂 beijos, Ana.

    Reply
  3. Patrícia Gomes
    05/12/2013 at 11:09 pm (4 years ago)

    Há muito tempo não lia um texto tão emocionante sobre a arte! Parabéns!

    Reply
  4. Rosângela
    06/12/2013 at 2:09 am (4 years ago)

    E Maria, Maria também e arte e cultua, minha gente.
    Olha que convivi durante muitos anos entre bailarinas e sapatilhas e nunca parei para pesquisar a origem desta saudação no meio artístico.
    Pronto, agora está explicado. E de brinde ainda ganhamos esta linda história de amor à dança.
    Bravo, também pelo texto!

    Reply
  5. Paulinha
    06/12/2013 at 11:57 am (4 years ago)

    Lindo texto!
    Um amor, uma paixão que não pode ser deixada de lado! Por mais que ela não te queira! Hehehe…
    Analisando a vida como um todo é feita de amores não correspondidos, de coisas que abrimos mão, por diversos fatores… coisas que amamos e às vezes ficam só na lembrança.
    Eu tenho um problema muito chato no joelho há 12 anos! Larguei esportes q eu tanto gostava, mas acabei descobrindo outras modalidades pelas quais também me apaixonei! Aquelas outras só em boas memórias!
    =)

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  6. Roberta Corrêa
    06/12/2013 at 1:10 pm (4 years ago)

    Sério, vou parar de ler os textos da Maria, Maria… Ela sempre me faz chorar! NÃOOOOO, não vou parar não, não vivo sem ela!
    Eu só queria ter a força que ela teve pra compreender esse pé na bunda que levamos do ballet e aceitar ele de volta. Será que um dia eu vou conseguir?? Ai ai…

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