Quando
ele chegou na nossa vida, eu tinha apenas 11 anos. Já era noite. Eu e meu irmão
estávamos de banho tomado e pijaminhas vestidos esperando, ansiosamente, por
ele. Lembro-me daquela noite como se fosse hoje.
Eu
sempre quis ter um cachorro. Queria poder passar a mão no pelinho dele, levá-lo para passear, dar comidinha, brincar, mas
principalmente, dar muitos e muitos afagos. Depois de muita insistência e de
uma tentativa frustrada em receber um cachorrinho em nosso apartamento, eu já
havia quase desistido da ideia, quando conheci a gatinha de uma amiga e, aos
poucos, meus pais foram alimentando aquele desejo que não era só meu, mas de
meus irmãos também.
E
foi assim que me apaixonei por ele: veio no colo de minha mãe um bichinho muito
peludo, branquinho, de olhos azuis e extremidades cor de caramelo, que se
chamava Fiori.
O
primeiro cômodo da casa onde entrou, foi o quarto de minha vó. Nem preciso
dizer que a cama dela era uma de suas prediletas. Minha irmã, que tinha um
certo receio com animais, devido a um pequeno trauma de infância, tornou-se uma
“Felícia de Gatinhos”, cada vez que o pegava no colo, apertava com tanta gana,
que eu sempre me via obrigada a resgatá-lo!
Embora
tenhamos comprado nosso gatinho de alguém que se dizia muito cuidadosa, o
pobrezinho teve febre, por conta de uma infecção urinária, na primeira semana
de convivência conosco. Foi nessa ocasião que selamos nosso pacto eterno e
altruísta de amor. Fui mãe dele o tempo todo. Tínhamos códigos secretos. Quando
chegava em casa, dava a ponta do meu nariz para ele encostar a dele e saber que
quem estava ali era eu. Cantava para ele uma música que somente ele me ouvia
cantar. Quando isso acontecia, juro, ele fechava os olhos e ronronava, mesmo
sendo a minha voz muito estridente e desafinada.
E
assim ele criou vínculos com toda a família. Adotou comportamentos relacionados
a cada um de nós, tal como gostar de comer queijo com doce de leite; roubar
pãezinhos e coisinhas que deixávamos sobre a mesa durante a noite só para
brincar; adorar tomar banho de sol; correr de um lado para o outro da casa
(praticamente um pega-pega com meu irmão); sentir o cheirinho do manjericão que
cultivávamos e o mais gostoso de tudo: sentar em cima do vaso de hortelã de
minha mãe, cheirar o vento e comer aquelas pequenas folhas, as quais ele jurava
terem sido plantadas para ele. Quem não teve ou não tem um animalzinho, jamais
vai entender isso, mas eu adorava o “bafinho” dele. Tinha cheirinho de hortelã.
Depois
de dois anos, chegou a Naomi (a Nô para os chegados). Veio para ser
irmãzinha dele. Bem pretinha e peludinha. Eram um, o contrário do outro. Viviam
brigando e se aconchegando na hora do frio. Ela roubava a comida dele por gosto
e ele deixava, também por prazer. Ele sempre foi o lord e ela, a maloqueira.
E assim vivemos por mais de quinze anos. Quando o Fi chegou nos 15, parei
de contar a idade dele, pois não queria enxergar que meu filhinho havia passado
de mim e logo, logo deixaria sua mãe que ainda estava na flor da idade.
E
não adiantou de nada costurar as folhas nos galhos da árvore para que elas não
caíssem. O tempo passou e um dia meu Fi se foi.
Ainda
não sou mãe e posso estar muito errada, mas sinto que tive uma dor parecida com
aquela de quem perde um filho. Cuidamos dele com tanto esmero, mas o tempo,
como sempre, foi infalível.
A
Nô, sem entender muito bem, ou entendendo melhor que todos nós, viveu seu
momento de luto, que durou muito tempo, assim como o nosso, mesmo que tenhamos,
a cada dia, tentado aceitar as coisas da vida. Nesses tempos difíceis, jurei
que nunca mais pegaria um bichinho, afinal, nos apegamos tanto para depois
perdê-los.
Mas
aos poucos, a tristeza foi diminuindo e vimos que a Nô precisava de companhia.
Foi então que em uma viagem dos meus pais, eu e meus irmãos, escondidos de
minha vó, adotamos uma gatinha vira-lata que estava sendo doada: a Nina.
Agora a Nô tornou-se a lady e é, diariamente, importunada por uma gata
elétrica, mal educada, que sobe em lugares altos e inusitados, tem um olho de
cada cor, além do estranho hábito de tomar água molhando as patinhas no
recipiente para depois lambê-las. São irmãs – sabem se odiar e se amar ao mesmo
tempo.
E
assim seguimos nossa vidinha “família buscapé”. Alguns se vão, outros chegam e
o que realmente importa são os afetos, por mais que o tempo nos afaste, quero
acreditar que é momentâneo e que, no final das contas, estamos sempre juntos.
São
bichinhos? Sim. Irracionais? Não sei… Traiçoeiros? Jamais. O Fi foi meu
grande amiguinho, meu primeiro filhinho e ainda é a certeza de que os animais
correspondem ao afeto que damos e merecem todo o nosso respeito e cuidado. Do
contrário, os irracionais seremos nós.

P.S.: O Rei da Pedra é o leão, que sobe na pedra mais alta
da selva para ecoar seu rugido aos outro animais da floresta. O Fi fazia, mais
ou menos, a mesma coisa. Subia no braço do sofá, enchia e peito de ar e
cheirava o vento que batia pela janela em seu rosto. Era um gato que se via
como um leão (e aí está o segredo que todos nós deveríamos buscar: aquilo que
realmente refletimos no espelho).
Para conhecer a Maria, Maria clique aqui.

2 Comments on Meu reizinho da pedra

  1. rita
    31/10/2013 at 5:52 pm (4 years ago)

    Ai meu deus, me identifiquei totalmente com a coluna de hoje.

    Nao existe nada igual ao amor de um bichinho de estimação, nao sei explicar direito, mas so quem vive sabe como é bom e gostoso saber a expectativa que se tem de chegar em casa de uma vez para vê-lo, ou pensar neles durante o dia sabendo que estao em casa nos esperando.

    Coisa mais maravilhosa do mundo!

    Eu deveria parar de contar a idade do Butters tambem, sofro so de pensar 🙁

    Beijinhos
    Rita

    Reply
  2. Anonymous
    01/11/2013 at 1:57 am (4 years ago)

    Post lindo! Chorei de emoção, só quem teve o privilégio de conhecer o amor que os nossos bichinhos nos oferecem, sabe da alegria que é ter um (ou vários) companheiros destes ao longo de nossas vidas. Parabéns, Maria, Maria.

    Beijos,

    Julia

    Reply

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