“Não há nenhuma medida de tempo nesse caso, um
ano de nada vale, e mesmo dez anos não são nada. Ser artista significa: não
calcular nem contar; amadurecer como uma árvore que não apressa a sua seiva e
permanece confiante durante as tempestades da primavera, sem o temor de que o
verão não possa vir depois. Ele vem apesar de tudo. Mas só chega para os
pacientes, para os que estão ali como se a eternidade se encontrasse diante
deles, com toda a amplidão e serenidade, sem preocupação alguma.” Rainer
Maria Rilke.

Um jovem, que queria muito ser poeta, certa vez escreveu para Rilke – autor que
influenciou uma geração de escritores – pedindo para que ele corrigisse e
criticasse seus poemas, pois como se via muito jovem e inexperiente, temia
nunca ser um poeta, tal como Rilke era.

Em Cartas a um Jovem
Poeta
, Rilke diz a esse jovem poeta, mais ou menos, assim: se a
primeira coisa que você faz quando acorda é querer escrever; se você não
consegue olhar para o colorido das árvores ou para a melancolia da chuva sem
deixar de pensar no que escreveria sobre essas coisas; se ao deitar seu coração
confunde realidade com as ficções que escreve, não há o que eu possa lhe
ensinar, vocês já é um poeta. Basta deixar as coisas acontecerem e ouvir seu
coração. Por favor, não desista.
Está na hora de deixar falar o coração. Por isso, eu escrevo. Escrevo minhas
esperanças, minhas angústias, minhas alegrias, minhas tristezas.
Não é bom guardar absolutamente tudo à sete chaves. O ser humano não é
uma ilha e precisa de alguém ou de algo em que possa depositar e expressar suas
percepções, seus sentimentos.
Para espairecer, alguns escolhem a música (tocando ou ouvindo); outros
escolhem a dança (para apresentar a uma plateia ou para dançar como se ninguém
estivesse vendo). Há quem escolha o silêncio, um templo, a multidão, a serra, a
comida, as drogas, o trabalho árduo, o choro, a terapia, a agressão ou o
recolhimento. Inúmeras são as alternativas. Eu escolhi as palavras.
Hoje escrevo para “defenestrar” minha ansiedade. Defenestrar – atirar
pela janela
. Luis Fernando Veríssimo
já questionou a razão de existir no dicionário brasileiro uma palavra própria
para ilustrar o ato de “jogar pela janela”…
Mas voltando à minha ansiedade: hoje quero defenestrar, quero expulsar,
ver pelas costas, excretar, quero banir, excluir, enfim, mandar para aquele
lugar esta tal ansiedade.
Ela anda me consumindo há semanas e, embora no trabalho eu busque
deixá-la de lado, sei que me influencia na hora de produzir como acho que devo.
Ainda que me policie para que ela não adentre minhas atividades de lazer ou que
ela não invada a hora do meu sono, a verdade é que ela tomou conta de mim.
Então eu pensei: preciso escrever. Só assim vou tirar de vez essa
“diaba” de mim. Pronto. Sai desse meu corpo que não te pertence! Alguns
segundos meditando a consciência de estar ansiosa e tudo começa a se acalmar
dentro de mim…
Diante de nossas loucuras, precisamos, ao menos, tentar controlar
nossos pensamentos. Falhei comigo nessas últimas semanas, pois deixei de me
vigiar. A vigília não precisa ter uma conotação de dureza ou de reprovação, mas
sim, de cuidado e de amor próprio.
Dessa forma, lendo meus autores inspiradores, Rilke veio me dizer que
as árvores não se apressam, mesmo em meio às tempestades da primavera, pois
sabem que o verão não tardará a chegar, afinal, ele chega, apesar de tudo. Ele
sempre chega!

Assim será com o que devo receber dessa vida. Tenho feito o que posso,
o que me é facultado fazer. O resto, é esperar, pois não depende de mim, mas do
universo, talvez.
Minha vó sempre me dizia: o que é teu, às tuas mãos chegará. Vou confiar nela. Sei que ela estava certa, já tive
provas disso. Muitas coisas tão minhas já chegaram a mim, sem que eu fizesse muito esforço. Não será diferente agora, a vida tem seus momentos certos para
acontecer e eu, no que não puder interferir, vou aceitar e ser feliz.

Um beijo pra ti, Dona Ansiedade, que aqui tu não entras mais, não tão cedo, ao menos!

Para conhecer a Maria, Maria clique aqui.

3 Comments on O verão vai chegar

  1. Gustavo Corrêa
    24/10/2013 at 1:35 pm (4 years ago)

    É, ansiedade é um problema. Confesso que não pensei como faço para lidar com a minha, mas talvez seja bom ter esta fuga mesmo. Vou pensar melhor 🙂

    Reply
  2. rita
    24/10/2013 at 4:41 pm (4 years ago)

    Nossa, a coluna de hoje foi escrita para mim!

    Tambem estou me sentindo assim, muito ansiosa, com problemas que já estao fora do meu alcance. Eu faço a minha parte, me comprometo a fazer o que for preciso dentro do meu alcance, a não desistir, a seguir tentando, procurando solucoes, mas as vezes as coisas tomam um rumo que só entregando na mao de Deus mesmo e confiando que o que for para ser será, que não importa o que aconteca, ao menos tu fizestes a tua parte, a parte que te cabia fazer, o final da linha só cabe a Deus mesmo.

    Quando se vê as coisas desta forma a ansiedade diminui um pouco. Nao por completo, pois fica aquele sentimento de espera, mas fazer o que?

    Faz parte.

    Otimo texto.

    Beijinhos
    Rita

    Reply
  3. Roberta Corrêa
    24/10/2013 at 6:35 pm (4 years ago)

    Posso fazer também???
    ALÔ ANSIEDADE DO MEU CORPO QUE ME CONSOME! TE MANDA DAQUI AGORA! Tá pensando o que heim? Tá achando que é mais forte que eu? Nãnãninãnão! Sai desse corpo que não te pertence, eu te odeio viu? Tu me dá dor de barriga. bléééééé.

    Baita texto, e como é fácil, tão perto do nosso alcance levar essa ansiedade para nossa camada consciente e mandar ela embora. Valeu Maria, Maria!

    Reply

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