Às vezes nos vemos
muito pouco afortunados por não haver condição de viajarmos para a Europa uma
vez por ano, ou porque ainda não temos o apartamento com todos os metros
quadrados que julgamos merecer, ou então porque o trânsito anda caótico e ficar
horas dentro do carro entre a casa e o trabalho, entre o trabalho e o super
mercado, ou entre a academia e o retorno no final do dia para casa é comprovar
a falta de qualidade de vida em que nos encontramos, a falta de paz de
espírito, a falta de melhores condições de tráfego e de trabalho, a falta de
mais opções de lazer…
Muitos de nós não
dependem do transporte público, somos mais um carrinho em  meio àquele cenário poluído de uma avenida  movimentada. Ou mesmo aqueles que usam o transporte
público porque precisam, também se colocam em uma suposta situação penosa, sem
lembrar (ou saber) que há muitos que pegam mais de uma condução, ou que
caminham quilômetros para então encontrar sua parada.
O trânsito não é o
problema, não morar no bairro dos sonhos com o apartamento dos sonhos também
não é. O cinema é caro, a internet é lenta, o shopping provoca meu
consumo, eu quero mais, mais e mais! Queremos o plástico, o artificial, aquilo
que a mídia impõe, o corpo lindíssimo e esbelto das hollywoodianas!
Em momentos de
sensatez me vejo dentro de pensamentos tolos de angústia, imaginando e tentando
adivinhar se vou conseguir conquistar meus objetivos (ter os filhos na hora
certa, prover estes filhos com educação, cultura, qualidade de vida, se vou ter
meios para preservar meus luxos, minhas superfluidades que, plasticamente,
fazem de mim tão ‘satisfeita’ com a vida).
Será que não devo (ou
devemos) rever nossas prioridades para a felicidade? Não quero dizer com isso,
que o correto é nos pautarmos naquele que menos pode, assim nos damos por
satisfeitos por fazer o que podemos. Mas me pergunto até onde devemos ir, até
onde devemos buscar e buscar e buscar.
Essas questões não
surgiram gratuitamente: foi um rapaz com seus trinta e poucos anos, que
testemunhei noutro dia, procurando parcelar uma dívida. Ele era simples,
humilde, de parcos recursos, trabalhador e resignado. Não queria perdão da
dívida, tampouco sugeriu “dar um jeitinho”, apenas queria pagar a tal dívida,
mas para isso precisaria reagendar a data do vencimento, pois só receberia no
próximo dia 02.
Foi então que lembrei
de uma música linda do Chico Buarque e ela não saiu da minha cabeça o dia todo:
Gente Humilde.
Diz, mais o menos assim:  Tem certos dias/Em que eu penso em minha
gente/E sinto assim/Todo o meu peito se apertar/Porque parece/Que acontece de
repente/Como um desejo de eu viver/Sem me notar/Igual a como/Quando eu passo no
subúrbio/Eu muito bem/Vindo de trem de algum lugar/E aí me dá/Como uma inveja
dessa gente/Que vai em frente/Sem nem ter com quem contar (…) E eu que não
creio/Peço a Deus por minha gente/É gente humilde/Que vontade de chorar
Bueno, eu sou honesta,
sou tão do bem como aquele rapaz humilde parecia ser, procuro fazer tudo da
maneira mais correta comigo, com o meu semelhante e com o mundo, mas às vezes
me vejo tão mesquinha querendo mais e mais…
Esse pode parecer um
desabafo (na verdade é), mas também é a expectativa por desejos mais humanos.

6 Comments on Gente Humilde

  1. rita
    04/09/2013 at 4:20 pm (4 years ago)

    Amei o assunto de hoje!
    Eu quero muito ser mais humilde, na verdade ter uma vida mais simples, querendo MENOS, e agradecendo mais pelo que ja tenho.

    Hoje em Vancouver eu me sinto melhor do que em Calgary, lá havia uma pressão maior em ter uma casa maior, mais nova, mais chique, um carro novo mais seguido, mais caro….ja aqui em Vancouver não, acho que pelo custo de vida obsceno, se você tem uma casa, qualquer que seja, nova ou antiga, voce ja poe as maos para o ceu. Assim como tu ves carros chiqueterrimos em North e West vancouver, tu tambem vem milhares de carros bem antigos, antigos MESMO,pois a galera hippie de Vancouver não esta nem ai para se seu carro eh novo ou nao, então me sinto menos pressionada e querer mais.

    Uma pena ser assim, mas a gente se sente pressiona mesmo, é dificil não dar bola, é um constante aprendizado, a tentação é grande.

    E isso vale para tudo na vida não somente a questão material, pois primeiro voce tem que ter namorado, depois fica a pressão de casar, depois a pressão de ter o primeiro filho, a ter o segundo, poxa, nao acaba nunca esta historia.

    Temos muito que mentalizar e nao dar ouvido para ninguem e nem para as tentacoes de revistas e da "coluna social"

    É um exercicio diario

    Beijos
    Rita

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  2. Gustavo Correa
    04/09/2013 at 5:01 pm (4 years ago)

    Direto de Frankfurt: concordo com a Maria, Maria… É uma competição em vários sentidos, inclusive no "ter". Não pela competição, mas por uma necessidade que talvez seja criada, gostaria também de dar uma relaxada maior. Faria bem.

    Reply
  3. Roberta Corrêa
    04/09/2013 at 5:02 pm (4 years ago)

    Baita desabafo, baita reflexão! É hora de buscar, acima de tudo, a nossa humildade! Adorei!

    Reply
  4. Juliana Leal Valera
    04/09/2013 at 5:13 pm (4 years ago)

    Belissimo texto, me emocionou e me arrepiou!!
    Parece mesmo que a gente so fica satisfeito quando consegue comprar a casa, o carro, a bolsa, o celular… Quando vai naquele restaurante ou faz aquela viagem.
    A felicidade esta nas coisas mais simples, por isso nunca estamos satisfeitos, pq nunca queremos o simples.
    Beijos

    Reply
  5. Bere
    05/09/2013 at 3:10 am (4 years ago)

    Amei o texto Maria Maria!!!!!na minha vivência, "talvez" alguns a mais que vocês, tenho cada dia mais certeza que a tão sonhada felicidade está bem pertinho….nas pequenas coisas simples…e tenho tentado cada dia ter mais LEVEZA e SIMPLICIDADE….e sabe que vem dando certo?????
    Vale a pena chegar a estas conclusões e o mais importante VIVER isto todos os dias….
    Um beijo

    Reply
  6. Sandra Nogueira
    05/09/2013 at 6:02 am (4 years ago)

    Aprendi com a Helena que o que almejo, e mais nada, é vê-la com saúde, com qualidade de vida e independente…a casa que quero: qualquer uma que seja inteiramente acessível; o carro que quero: aquele que caiba um andador e uma cadeira de rodas…a viagem que quero: para um mundo com mais inclusão e menos preconceito…este post de hoje me fez ver que a bolsa, a roupa, o carro, as viagens e os perfumes foram deixados em um passado que só agora vi que não é mais meu presente…obrigada Rita e Maria, Maria…bjos

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