Hoje às 8 da manha pegamos um voo para o nosso destino. Dá-se a partida, e como ficam as memórias?

A nossa família está se mudando, de casa, de cidade e de estado. E com esta partida ficará para trás um pedaço material da nossa história. A nossa primeira casa, onde começamos a construir nossa família, onde tivemos a nossa filha e com ela toda a bagagem de lembranças que hoje fazem parte de nós.

Lágrimas de tristeza caem por deixar este pedaço da nossa história para trás, mas também de alegria pelo futuro onde queremos viver. Quando penso em tudo o que vivemos aqui dentro, momentos de expectativa com a gravidez e depois de medo e tristeza pelo parto prematuro, custo a acreditar em como se pode crescer e aprender tanto em menos de dois anos. Aprendemos a ser pais na teoria, curtindo a gestação de uma filha tão amada e fazendo planos para o futuro, aprendemos depois a advogar pela sua saúde e proteção, questionando médicos sobre o melhor tratamento que eventualmente salvaria a sua vida. Lá fora até parecíamos fortes, mas aqui dentro eramos vulneráveis a toda dor que estávamos sentindo.

A nossa casa foi refúgio de momentos de extrema esperança e desolador medo, e quando olho para as suas portas, salas e quartos me lembro de todas as primeiras vezes que passamos aqui: o teste de gravidez, a primeira mão de tinta no quartinho do bebe, as dores do parto, o choro no banho no primeiro dia em casa…já não mais grávida, os sentimentos tristes em saber que eu estava segura na minha casa, enquanto meu bebê estava sozinho no hospital. Inúmeras noites sem dormir, com medo do telefone tocar, as manhãs corridas para chegar ao hospital o mais rápido possível, a tão esperada data para levar a cadeirinha do carro para a UTI, o sonhado dia da alta. Inúmeras primeiras vezes da minha filha em casa, aprendendo a ser um bebê normal, a mamar, dormir, brincar, engatinhar, andar e falar. Momentos impressos em cada porta e janela desta casa.

A mudança nos distanciara do trajeto para o hospital – ah o tão temido hospital, aquele que ainda me invoca sentimentos dúbios de felicidade e tristeza, que hoje, passados quase 2 anos, só me trazem lembranças boas. Como imaginar mudar de cidade e deixar para trás o nosso norte durante quase quatro meses? E as amizades que construímos lá? E a lembrança palpável de cada manhã e noite indo e voltando para casa?

Será que sentiria o mesmo sentimento de perda ao mudar se não tivéssemos passado por tudo o que passamos? Será que seria mais fácil dizer adeus e ir embora sem olhar para trás? Será que conseguiremos construir momentos tão importantes quanto este no nosso novo destino?

Não sei se os sentimentos seriam diferentes, mas sei sim que o futuro nos guarda muitas experiencias igualmente emocionantes e marcantes, mas é doloroso mesmo assim deixar um pedaço das nossas lembranças para trás, um pedaço material que simboliza tanto a dura jornada que atravessamos para trazer o nosso bebê para casa. Esta mudança será peça chave no difícil processo de deixar para trás tudo o que nos aconteceu. A aceitar que o que foi já passou e que embora jamais esqueça tudo o que passamos, o processo de aceitação deve começar em algum momento.

Quer lugar mais lindo para se começar uma nova jornada do que a linda e chuvosa Vancouver?

1 Comment on E da-se a partida

  1. Marcela Macedo
    02/08/2011 at 7:03 pm (6 years ago)

    Isso!! Acho que vai ser bem isso Rita… um ritual de passagem.
    Estou torcendo muito para que dê tudo certo na mudança e que essa nova jornada seja linda, para todos vocês!
    Quero saber de todos os detalhes da nova cidade e da nova rotina das minhas garotas internacionais preferidas!!!

    Beijos!

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