Texto longo, apertem o cinto!
 
Esta é a introdução de outro texto que vocês lerão aqui no Botõezinhos esta semana sobre prematuridade

Prematuros extremos como a Bella (nascidos com menos de 28 semanas de gestação) e menos de 1.1 quilo são acompanhados até seus 5 anos de idade aqui no Canadá.

Muitos não sabem, mas quanto mais prematuro o bebê, maiores as chances dele apresentar sequelas no futuro. Não gosto de entrar em detalhes muito negativos sobre prematuridade aqui no blog, mas ao mesmo tempo gostaria de passar para os leigos a severidade de um parto prematuro. Eu, antes de ter a Bella, nunca tinha parado para pensar nas consequências da prematuridade, pois as histórias que conhecia eram de prematurinhos maiores, nascidos de idade gestacional mais avançada. Somente de uma década para cá a medicina vem lidando com as consequências de crianças consideradas prematuras extremas.

Cada país possui suas próprias regras médicas e morais quanto a viabilidade de um prematuro extremo. No Canadá, por exemplo, o limite para interferência médica é de 23 semanas de gravidez, um bebê nascido de 22 semanas não é reanimado pelos médicos, diferente dos Estados Unidos onde isso acontece. Não sei ao certo qual o limite no Brasil, mas acredito ser 24 semanas, não menos do que isso.

Semana passada a Bella teve sua consulta anual na clínica de prematuros e tive a oportunidade de conversar com a sua pediatra na clínica, por coincidência a mesma pediatra que cuidou dela no auge da sua doença na UTI. A médica examinou a Bella, mas principalmente a observou brincar e correr pela clínica, e sua expressão de encantamento ainda não saem da minha cabeça. Quando percebi que ela olhava pra Bella daquela maneira, perguntei certas coisas que nunca tinha tido coragem de perguntar antes (quais tinham sido as chances reais dela sobreviver no auge da sua doença, por exemplo) e antes dela responder esta pergunta, aquela médica durona e direta, que na época me dava medo por sua falta de sensibilidade, disse com uma expressão de encantamento o quanto estava impressionada com a Bella. Não no sentido de “sua filha é linda, parabéns”, mas de presenciar a combinação perfeita do avanço da medicina com um toquezinho de milagre vindos daquela menina de quase 2 anos.

Pais de prematuros de primeira viagem não sabem o que vem pela frente e pessoas leigas, sem contato com prematuros, sabem muito menos. Salvar um bebê de apenas 800 gramas é um desafio extremamente difícil,  que muitas vezes causa comoção não só na família do bebê, mas como nos médicos e enfermeiros. Bella nasceu com 810 gramas e caiu para 600 na primeira semana de vida. Imaginem o avanço da medicina para salvar um bebê deste tamanho? Ás vezes é até difícil compreender que é possível nascer pequenininha assim.

A pediatra da Bella contou que eles muitas vezes não tem a oportunidade de ver o “resultado final” dos seus cuidados e noites em claro, uma vez que o bebê estando bem e ganhando alta, dificilmente o verão crescer. É por estas e por outras que o Canadá dispende uma verba enorme para acompanhar de perto o desenvolvimento de prematuros extremos como a Bella.

7 dias de vida e 600 gramas

Prematuridade significa lidar com possíveis sequelas, estas podendo ser leves, moderadas ou mais graves, e sendo os cuidados com prematuros extremos tão novo, visto que não sobreviviam até 10 anos atrás, há que se cuidar de perto para que seu desenvolvimento motor e cognitivo esteja acontecendo como deveria. Tivemos a sorte imensa de sair do hospital com um bebê sadio e com sequela leve (retinoplatia da retina no grau III), um verdadeiro milagre para uma criança que nasceu com míseros 6 meses de gravidez. Por isso a médica da Bella parecia realmente encantada, pois ver aquele bebê tão doente correr por aí tão independente, falando não só uma como duas línguas, é para encantar qualquer um.

Eu sempre me emociono falando deste assunto pois por mais que pensemos que médicos sejam frios e não aparentem grande emoção quando falam de seus pacientes, sei dentro de mim que a alegria de salvar e ver crescer um bebê dado menos de 40% de chances de sobreviver, deve ser imensa.

127 dias de UTI, quase indo para casa

Bella passou por uma avaliação bastante longa na clínica de prematuros semana passada, sendo examinada por médicos muilti-disciplinares por quase 4 horas seguidas. Ver a nossa pimentinha ser examinada daquela forma, passar por tantos testes com terapeuta linguístico, psicólogo, pediatra, assistente social, entre outros, nos deixou apreensivos a príncipio, mas também orgulhosos e felizes por termos tido a sorte de levar nosso bebê para casa, por vermos este bebê que poderia ter tantas sequelas se desenvolver de maneira brilhante, surpreendendo todos a sua volta.

Sua consulta foi um sucesso e Bella saiu de lá com “flying colors” como dizemos em inglês, ou seja, “passou” com estrelinhas coloridas em todos os testes complexos aos quais foi submetida.

Aguardem a parte II deste assunto para verem como é interessante o trabalho da clínica multi-disciplinar aqui no Canadá. Não canso de falar sobre prematuridade aqui no Canadá na esperança de um dia termos o mesmo serviço disponível no Brasil.

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