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Já escrevi um pouco sobre isso, mas conversando com uma amiga, também mãe de um prematurinho, este assunto me veio à cabeça novamente.

Se existe uma pergunta que paira sob os pensamentos de uma família prematura é, será possível esquecer tudo o que se passou?

Não. Não é possível esquecer.

Só quem vive uma experiência como esta sabe o que é perder a inocência de forma abrupta. A Rita que existiu até o nascimento da Bella, não existe mais. Lógico que gostaria de acreditar que sou hoje uma versão melhorada de mim mesma, mas perdi aquela inocência que nem percebemos que temos, até que a perdemos.

A maternidade e a paternidade em si só já mudam uma pessoa. Você passa a se preocupar com o bem, a saúde e a proteção de outra pessoa muito mais do que a sua, e depois que se é mãe ou pai, se entende melhor o significado da frase “viver com o coração fora do seu corpo”. Todos mudamos com o nascimento de um filho, mas o nascimento de um bebê prematuro muda você não só por um tempo, mas para sempre.

Viver sem conhecer o lado “escuro” da vida é um luxo, e abençoados sejam os que tem este privilégio. Lidar com situações entre a vida e a morte não deveria fazer parte da vida de uma mãe saudável de 30 anos, e muito menos de um anjo de apenas 800 gramas. Ouvir de médicos frases como “se o seu bebê sobreviver a esta noite”, sepultam a inocência de qualquer um.

É difícil explicar por quê um parto prematuro afeta tanto uma pessoa, pois teoricamente tendo o bebê sobrevivido, se recuperado e ido para casa, tudo está bem aos olhos do mundo e a vida continua. O mundo segue em frente e esquece tudo o que você passou, e você parece ficar para trás, sozinha com os seus sentimentos.

Alguns médicos da Bella comparavam o parto prematuro à experiência de lidar com a morte, e com ela, as fases que as sucedem:

  • Choque
  • Negação
  • Culpa
  • Raiva
  • Depressão
  • Resignação
  • Aceitação

Se você passou pela experiência de um parto prematuro ou conhece alguém íntimo que passou, você poderá identificar estas fases.

Eu nem saberia dizer onde me classificaria atualmente, acredito que entre a depressão e a resignação. Vejam bem, nunca me deprimi de “verdade” e não acho que sofra de depressão agora, mas seguindo a lógica acima, eu já passei da raiva mas não cheguei ainda na tão almejada aceitação.

Poderei dizer que realmente aceitei a situação que vivemos, quando não me perguntar mais “Por quê comigo?”, quando parar de lembrar diariamente de detalhes daquela época e quando um apito não me levar de volta a UTI. Até lá, não terei chegado a aceitação, acredito.

Resolvi escrever este post pois recebi alguns emails de mães prematuras com os mesmos sentimentos que eu tenho até hoje, mesmo 2 anos depois, e não gostaria que alguém vivendo esta experiência pensasse que está só.

Um dos maiores aprendizados disso tudo é se sensibilizar com o próximo, alguém que esteja vivendo o que você viveu. Você passa a entender aquela outra mãe de uma maneira que talvez nunca entenda outro ser humano, e o seu coração chora e sorri junto com ela.

Nunca esqueço de uma frase que li há muitos anos, não lembro dela exatamente, mas lembro que dizia que lágrimas são a manifestação de um sentimento tão forte que o corpo não consegue segurar dentro de si. E não existe nada igual às lagrimas de uma mãe. Por isso a causa prematura me afeta tanto, pois não existe nada igual a uma mãe prematura chorando, é um sentimento de vazio tão grande que ninguém pode entender até passar por esta experiência.

Existe, porém, um saldo positivo disso tudo, e ele é o sentimento constante de agradecimento. De no meio do dia, de repente, você parar e pensar “Nossa, sobrevivemos a tanto e hoje estamos aqui saudáveis e felizes”, de olhar para o rosto do seu filho e se mesmerizar com tamanho milagre, de vê-lo caminhar e falar e pensar “superamos todas as possíveis e prováveis sequelas de um parto de 25 semanas e aquele bebê tão pequeno hoje fala e caminha”.

Não sei se outros pais pensam nisso todos os dias, mas pequenos milagres não passam despercebidos para pais prematuros. Nossos filhos são constantes lembretes de como temos muito mais a agradecer do que reclamar.

Será possível esquecer um dia?

Não, mas tenho esperança de que este sentimento se transforme em mais alegria e agradecimento, e menos tristeza. Para mim e para todas as mães prematuras soltas pelo mundo.

4 Comments on É possível esquecer?

  1. Anonymous
    05/07/2011 at 4:20 pm (8 years ago)

    Oi Rita … cheguei aqui pelo casamenteiras e vou adicioná-la na lista de blogs que visito ;-)) Na verdade, estou escrevendo para lhe dizer que não se deprima. Imagino que as dificuldades e ansiedade pelo que virá sejam muitas, mas como vc mesma disse na apresentaçao do blog, "o futuro é para ser vivido". Então curta sua lindinha (sempre) bebê todos os momentos, pois não temos como saber da vontade Divina ou o livre arbítrio dessas pequenas (grandes) alminhas. Digo isso pq tb tive o privilégio de uma pequena guerreirinha ter me escolhido para sua passagem: foi Sofia, de 26 semanas e 890 gr. Coisa mais rica e rosada de mãe! Viveu apenas 10 horas. Te digo, que a aceitação veio rápido, mas a tristeza e a saudade constantes fazem parte do ser humano e mãe que sou. E "aceito" pq foi o melhor pra ela, melhor pro universo, pq foi a vontade de Deus, pq tinha que ser, pq não era pra ser, pq foi o tempinho dela, pq tenho que continuar vivendo e pq ela gostaria que ficássemos bem! Então se permite um conselho: fique bem, seja feliz e ame mto! Somos privilegiadas! Fiquem com Ele. Bjs, Flavia (flaviagripp@yahoo.com.br)PS. não sei quais das opções abaixo me classifico, rs.

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  2. rita
    07/07/2011 at 1:46 am (8 years ago)

    Oi Monica.

    Oba, amanha passo no Pequenos como de praxe para dar oi de novo.

    Beijinhos
    Rita

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  3. Anonymous
    11/08/2011 at 6:01 am (8 years ago)

    Nossa, eu já estava chorando quando te mandei um e-mail pelo texto sobre sair da maternidade sem o bebê, agora, então, estou me debulhando em lágrimas. Me conforta muito saber que outras mães prematuras sentem as mesmas coisas que eu sinto. Também tenho verdadeiro HORROR ao caminho da maternidade, quase sempre evito passar por lá, mas inevitável ter que enfrentar…

    A cada progresso do meu pequeno vibro muito! Também agradeço muito que hoje, um ano e meio depois, estamos felizes, ele anda tudo, quase corre, já fala, se desenvolve superbem e estamos com saúde (tive pré-eclampsia/ eminência de eclampsia). Cheguei a ficar um dia no CTI grávida e outro sem depois do parto. Só vi o meu bebê no segundo dia de vida dele… 🙁

    Definitivamente, nunca vou esquecer o que passei.

    ADOREI O SEU BLOG!

    Claudia Pinheiro (claudiapm@globo.com)

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